segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Enquanto houver sol...



Quando não houver saída
Quando não houver mais solução
Ainda há de haver saída
Nenhuma idéia vale uma vida...
Quando não houver esperança
Quando não restar nem ilusão
Ainda há de haver esperança
Em cada um de nós
Algo de uma criança...
Enquanto houver sol...

Ainda haverá
Enquanto houver sol
Enquanto houver sol...
Quando não houver caminho
Mesmo sem amor, sem direção
A sós ninguém está sozinho
É caminhando
Que se faz o caminho...
Quando não houver desejo
Quando não restar nem mesmo dor
Ainda há de haver desejo
Em cada um de nós
Aonde Deus colocou...
Composição: Sérgio Britto

sábado, 20 de novembro de 2010

Dormia algures


DORMIA ALGURES

Dormia algures, disseram-me algumas vezes. E eu não me lembro de uma única vez em que esse detalhe tenha instigado minha curiosidade.

Eu o percebia algumas vezes aluado a me saudar aos gritos, com palavras que denotavam bom humor e amizade. Era como se desejasse compartilhar seus momentos, seus passos na estrada do existir, se deixando levar de roldão pelas escolhas que em seu lugar fazia-lhe a vida.

E nem mesmo essa impressão que dele eu tinha moveu-me a questionar os seus costumes. Ele existia, estava por ali algures. De um momento para outro eu podia vê-lo e responder às suas saudações, também com ares alegres, mas sem assumir compromissos.

Isso me bastava.

E aconteceu de me perguntar onde se alimentavam os cães de rua.

Onde mitigavam a sede? Onde se abrigavam da chuva?

Mas isso aconteceu em um momento em que meu coração se deixou levar por pena. Pena dos cães abandonados! Não era amor, era uma angústia apenas.

E então, assim sem mais nem menos, eu me dei conta da pobreza imensa de meus sentimentos para com aquele que aos gritos me saudava alegre. Eu percebi que podia me condoer com a má sorte dos cães, mas não me afetava o caminhar de um ser humano.

Um ser humano que visivelmente se alegrava pelo simples fato de me ver e de sentir minha existência.

 

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

SUTILMENTE...




E quando eu estiver triste
Simplesmente me abrace
Quando eu estiver louco
Subitamente se afaste
Quando eu estiver fogo
Suavemente se encaixe
E quando eu estiver triste
Simplesmente me abrace
E quando eu estiver louco
Subitamente se afaste
E quando eu estiver bobo
Sutilmente disfarce
Mas quando eu estiver morto
Suplico que não me mate, não
Dentro de ti, dentro de ti
Mesmo que o mundo acabe, enfim
Dentro de tudo que cabe em ti
Mesmo que o mundo acabe, enfim
Dentro de tudo que cabe em ti
E quando eu estiver triste
Simplesmente me abrace
E quando eu estiver louco
Subitamente se afaste
E quando eu estiver bobo
Sutilmente disfarce
Mas quando eu estiver morto
Suplico que não me mate, não
Dentro de ti, dentro de ti
Mesmo que o mundo acabe, enfim
Dentro de tudo que cabe em ti
Mesmo que o mundo acabe, enfim
Dentro de tudo que cabe em ti
Mesmo que o mundo acabe, enfim
Skank

Para refletir


.....

Naquela noite, enquanto minha esposa servia o jantar, eu segurei sua mão e disse: "Tenho algo importante para te dizer". Ela se sentou e jantou sem dizer uma palavra. Pude ver sofrimento em seus olhos.

De repente, eu também fiquei sem palavras. No entanto, eu tinha que dizer a ela o que estava pensando. Eu queria o divórcio. E abordei o assunto calmamente.
Ela não parecia irritada pelas minhas palavras e simplesmente  perguntou em voz baixa: "Por quê?"  Eu evitei respondê-la, o que a deixou muito brava. Ela jogou os talheres longe e gritou "você não é homem!" Naquela noite, nós não conversamos mais. Pude ouví-la chorando. Eu sabia que ela queria um motivo para o fim do nosso casamento. Mas eu não tinha uma resposta satisfatória para esta pergunta. O meu coração não pertencia a ela mais e sim  a Jane. Eu simplesmente não a amava mais, sentia pena dela.

Me sentindo muito culpado, rascunhei um acordo de divórcio, deixando para ela a casa, nosso carro e 30% das ações da minha empresa.

Ela tomou o papel da minha mão e o rasgou violentamente. A mulher com quem vivi pelos últimos 10 anos se tornou uma estranha para mim. Eu fiquei com dó deste desperdício de tempo e energia mas eu não voltaria atrás do que disse, pois amava a Jane profundamente. Finalmente ela começou a chorar alto na minha frente, o que já era esperado. Eu me senti libertado enquanto ela chorava. A minha obsessão por divórcio nas últimas semanas finalmente se materializava e o fim estava mais perto agora.
No dia seguinte, eu cheguei em casa tarde e a encontrei sentada na mesa escrevendo. Eu não jantei, fui direto para a cama e dormi imediatamente, pois estava cansado depois de ter passado o dia com a Jane.

Quando acordei no meio da noite, ela ainda estava sentada à mesa, escrevendo. Eu a ignorei e voltei a dormir.
Na manhã seguinte, ela me apresentou suas condições: ela não queria nada meu, mas pedia um mês de prazo para conceder o divórcio. Ela pediu que durante os próximos 30 dias a gente tentasse viver juntos de forma mais natural possivel. As suas razões eram simples: o nosso filho faria seus examos no próximo mês e precisava de um ambiente propício para prepar-se bem, sem os problemas de ter que lidar com o rompimento de seus pais.
Isso me pareceu razoável, mas ela acrescentou algo mais. Ela me lembrou do momento em que eu a carreguei para dentro da nossa casa no dia em que nos casamos e me pediu que durante os próximos 30 dias eu a carregasse para fora da casa todas as manhãs. Eu então percebi que ela estava completamente louca mas aceitei sua proposta para não tornar meus próximos dias ainda mais intoleráveis.
Eu contei para a Jane sobre o pedido da minha esposa e ela riu muito e achou a idéia totalmente absurda. "Ela pensa que impondo condições assim vai mudar alguma coisa; melhor ela encarar a situação e aceitar o divórcio" ,disse  Jane em tom de gozação.

Minha esposa e eu não tínhamos nenhum contato físico havia muito tempo, então quando eu a carreguei para fora da casa no primeiro dia, foi totalmente estranho. Nosso filho nos aplaudiu dizendo "O papai está carregando a mamãe no colo!" Suas palavras me causaram constrangimento. Do quarto para a sala, da sala para a porta de entrada da casa, eu devo ter caminhado uns 10 metros carregando minha esposa no colo. Ela fechou os olhos e disse baixinho "Não conte para o nosso filho sobre o divórcio" Eu balancei a cabeça mesmo discordando e então a coloquei no chão assim que atravessamos a porta de entrada da casa. Ela foi pegar o ônibus para o trabalho e eu dirigi para o escritório.
No segundo dia, foi mais fácil para nós dois. Ela se apoiou no meu peito, eu senti o cheiro do perfume que ela usava. Eu então percebi que há muito tempo não prestava atenção a essa mulher. Ela certamente tinha envelhecido nestes últimos 10 anos, havia rugas no seu rosto, seu cabelo estava ficando fino e grisalho. O nosso casamento teve muito impacto nela. Por uns segundos, cheguei a pensar no que havia feito para ela estar neste estado.
No quarto dia, quando eu a levantei, senti uma certa intimidade maior com o corpo dela. Esta mulher havia dedicado 10 anos da vida dela a mim.
No quinto dia, a mesma coisa. Eu não disse nada a Jane, mas ficava a cada dia mais fácil carregá-la do nosso quarto à porta da casa. Talvez meus músculos estejam mais firmes com o exercício, pensei.
Certa manhã, ela estava tentando escolher um vestido. Ela experimentou uma série deles mas não conseguia achar um que servisse. Com um suspiro, ela disse "Todos os meus vestidos estão grandes para mim". Eu então percebi que ela realmente havia emagrecido bastante, daí a facilidade em carregá-la nos últimos dias.
A realidade caiu sobre mim com uma ponta de remorso... ela carrega tanta dor e tristeza em seu coração..... Instintivamente, eu estiquei o braço e toquei seus cabelos.
Nosso filho entrou no quarto neste momento e disse "Pai, está na hora de você carregar a mamãe". Para ele, ver seu pai carregando sua mão todas as manhãs tornou-se parte da rotina da casa. Minha esposa abraçou nosso filho e o segurou em seus braços por alguns longos segundos. Eu tive que sair de perto, temendo mudar de idéia agora que estava tão perto do meu objetivo. Em seguida, eu a carreguei em meus braços, do quarto para a sala, da sala para a porta de entrada da casa. Sua mão repousava em meu pescoço. Eu a segurei firme contra o meu corpo. Lembrei-me do dia do nosso casamento.
Mas o seu corpo tão magro me deixou triste. No último dia, quando eu a segurei em meus braços, por algum motivo não conseguia mover minhas pernas. Nosso filho já tinha ido para a escola e eu me vi pronunciando estas palavras: "Eu não percebi o quanto perdemos a nossa intimidade com o tempo".
Eu não consegui dirigir para o trabalho.... fui até o meu novo futuro endereço, saí do carro apressadamente, com medo de mudar de idéia...Subi as escadas e bati na porta do quarto. A Jane abriu a porta e eu disse a ela "Desculpe, Jane. Eu não quero mais me divorciar".
Ela olhou para mim sem acreditar e tocou na minha testa "Você está com febre?" Eu tirei sua mão da minha testa e repeti "Desculpe, Jane. Eu não vou me divorciar. Meu casamento ficou chato porque nós não soubemos valorizar os pequenos detalhes da nossa vida e não por falta de amor. Agora eu percebi que desde o dia em que carreguei minha esposa no dia do nosso casamento para nossa casa, eu devo segurá-la até que a morte nos separe.
A Jane então percebeu que era sério. Me deu um tapa no rosto, bateu a porta na minha cara e pude ouví-la chorando compulsivamente. Eu voltei para o carro e fui trabalhar.
Na loja de flores, no caminho de volta para casa, eu comprei um buquê de rosas para minha esposa. A atendente me perguntou o que eu gostaria de escrever no cartão. Eu sorri e escrevi:  "Eu te carregarei em meus braços todas as manhãs até que a morte nos separe".

Naquela noite, quando cheguei em casa, com um buquê de flores na mão e um grande sorriso no rosto, fui direto para o nosso quarto onde encontrei minha esposa deitada na cama - morta.
Minha esposa estava com câncer e vinha se tratando a vários meses, mas eu estava muito ocupado com a Jane para perceber que havia algo errado com ela. Ela sabia que morreria em breve e quis poupar nosso filho dos efeitos de um divórcio - e prolongou a nossa vida juntos proporcionando ao nosso filho a imagem de nós dois juntos toda manhã. Pelo menos aos olhos do meu filho, eu sou um marido carinhoso.
Os pequenos detalhes de nossa vida são o que realmente contam num relacionamento.

Autor desconhecido


segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Reecontro

REENCONTRO

(Texto de Avelino F Menck)
Gentilmente cedido para Venturas do Viver)

Subia apressadamente a rua em direção à Sabesp. O aclive em curva ainda é bem acentuado. À medida que andava, vinham-lhe à mente recordações do tempo de adolescência. A única piscina da cidade, a do Dr. Arruda tão bem cuidada pelo sr Romão, ficava perto de onde ele estava.

Com o sr. Romão, as lembranças de um incidente: brincando na piscina, a imagem vem-lhe bem clara,salvara a vida de uma menina, também, adolescente. Linda menina, mas o nome não lembrava, só que era "de fechar o comércio" como se dizia à época.

Tentou apagá-las pois não havia tempo para isso. Tinha uma obrigação, hora marcada, por isso a pressa. Contudo, a emoção provocada foi muito forte.

A garganta ressequida, muito calor, a dor repentina, o braço já um tanto dormente. Seu médico já o avisara: "O coração já não anda lá essas coisas! Cuidado!"

O trabalho. A hora. Atrasado.

Solteiro vivia só desde que perdera os pais. Não se cuidava. Não tinha o porquê! Mas a dor! Esta aumentava naquele momento. "Dói, coração!Calejado...mas humano" dizia para si. A falta de ar. O peito arrebentando. O antebraço latejando muito. Sentou-se na calçada. Já não enxergava mais nada. Parecia ouvir vozes muito ao longe. Seriam sirenes?

Acordou em lugar completamente estranho. Uma mulher de branco. Uma vaga lembrança. Seria Médica?

— "Não se recorda de mim, Padre"?

"Padre"...poucos o chamavam assim na juventude. Fora coroinha no tempo do Padre Celso, daí o cognome. Mas ela, ela sim, sempre o chamara pelo apelido.

"Heliena! menina que salvara na piscina. Sua eterna paixão. A neta do Sr. Romão!

Felizes, riram muito ,e, entre recordações e carinhos: abraços e muitos beijos.

O fim de um longo celibato.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Seu “ Bau”

SEU 'BAU'

(Texto de Avelino Fernando Menck para Venturas do Viver)

Ao Sr. Bráulio Camargo de Freitas, amigo da família

" E viva Getúlio Vargas"
Eram as palavras finais de Seu “Bau” após um grande discurso que às vezes, durava horas.
Diga-se que os pronunciamentos atuais de um Fidel ou de um Chaves, são semelhantes ao antigo palavreado daquele velho amigo.
Pedreiro de profissão. Vivia em nossa casa, no sítio, como agregado, às vezes fazendo-se de cozinheiro de meu pai quando minha mãe precisava ficar conosco na cidade.
Sempre bebia- (síndrome dos antigos profissionais?) e quando o fazia, iniciava as falas sempre em defesa de seu maior ídolo. .Ninguém quase o ouvia.
Mas, no dia 24 de Agosto de 1954 foi diferente.
Bêbado, em pé, no alto do calçadão em frente a estrada no antigo armazém de meu pai, encostado à parede, defendia mais uma vez o governo Vargas.No início, apenas eu o escutava e por isso chamou-me para perto de si, abraçou-me e sem que eu esperasse, deu-me um beijo na testa. Quis fugir, contudo, sentindo pena, ali permaneci ouvindo-o.
Em suas explanações explicava os atos do grande presidente: voto da mulher, a proibição do trabalho para o menor de 14 anos, a lei do salário mínimo, e, detalhava passo a passo os efeitos produzidos pela legislação trabalhista da época.
Em pouco tempo eu não era o único a ouvi-lo. Juntou-se a mim um pequeno amigo de folguedos, seu pai em seguida e mais um ouvinte e mais outros. Em meia hora aglomerava-se pequena platéia, cerca de vinte pessoas, que já impedíamos o tráfego na estreita estrada de terra que ligava S. Paulo ao norte do Paraná.
Parou o primeiro caminhão de transportes. Buzinou. As pessoas entorpecidas pelo palavreado do orador não saíram. Seu Bau bradava e ao mesmo tempo despejava lágrimas, lembrando também de seu irmão Lauri, pracinha da segunda guerra, o que comovia as pessoas que o ouviam
Parou outro caminhão em sentido contrário e mais um e outro e outro mais. Os motoristas desciam e se juntavam à pequena multidão e também o aplaudiam, comovidos pelo inusitado da cena.
Seu Bau discursava. Falava que falava e se emocionava contagiando a platéia que nunca fora tão numerosa até então.
Meu pai fechou as portas do armazém e se juntou a nós tentando entender como acontecera aquilo tudo. Seu João, funcionário no armazém, ficara para ouvir no velho rádio à bateria (carregada com energia eólica) as últimas notícias do dia. Em seguida, meio apavorado, juntou-se à multidão e anunciou: ”Bau, seu presidente suicidou-se esta madrugada”.
Percebi a lividez da face do velho homem que parara de falar e levantando os olhos para os céus balbuciou: ”Que Deus o tenha!”. Levou a mão direita ao peito, sobre o coração e com sua voz um tanto rouca começou a cantar o Hino Nacional, ato seguido por nós todos, até o finalzinho sem o menor deslize: ”...és mãe gentil. Pátria amada. Brasil!”
A emoção fora grande demais para aquele simples homenzinho.
Levou a outra mão também ao peito e num gemido muito forte tombou na calçada, já sem vida.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Marta


MARTA

Em nossa casa a primeira pessoa a pronunciar o nome de Marta foi minha mãe. Da janela, de onde me descrevia as alterações ao redor, disse que a frente da casa tinha agora a cor verde. Perguntei se gostaríamos do verde e ela, curvando-se ao meu lado, disse num sorriso triste:

— A casa foi alugada. A nova moradora nos mostrará se gostaremos ou não da nova cor.

— Quem alugou a casa?

— O nome dela é Marta!

Quase todas as informações eram colhidas no ponto de ônibus ou na mercearia. Nosso bairro era antigo, distante, e estava contaminado por uma febre que já havia levado dali os moradores tradicionais. Onde no passado os imigrantes jogaram os alicerces das primeiras casas de nossa cidade, as máquinas, aplainando, criaram um vasto campo desolado para a construção do aeroporto. Enfrentando um processo de desapropriação injusto os moradores arribaram para locais ainda mais distantes. Nós permanecemos ali porque minha mãe não queria morrer em outro lugar.

Minha irmã não havia voltado para a casa da patroa. Do quarto disse qualquer coisa que não entendi direito. Ela agredia resmungando e em geral muito zangada. Depois minha mãe disse a ela que talvez Marta soubesse que o bairro estava condenado. Teria alugado a casa por pouco tempo.

A patroa de minha irmã a cobria de mimos. Fazia dela a beneficiária das roupas da filha, quase sem uso, e a ela vendia pela metade do preço algumas utilidades ainda na embalagem original. Minha mãe tentava ensinar lealdade à minha irmã fazendo notar que não era justo vir por uma noite e não voltar ao trabalho na manhã seguinte. Dava de ombros, insistia em lembrar seu desejo de trabalhar no comércio, transformar-se em balconista, esquecer para sempre que fora doméstica. Eu torcia francamente por ela, o meu coração ficava bastante oprimido em razão daquela forma de pensar de minha mãe. A nossa lealdade para com os que possuíam alguma coisa nunca fora até então correspondida e embora a patroa de minha irmã fosse um tipo mão aberta, o seria enquanto lhe interessassem os préstimos da empregadinha. Eu também sonhava com o dia em que minha irmã pudesse ir linda para o trabalho, produzida como nas noites em que saia para dançar.

Marta estava produzida quando a vi pela primeira vez na moldura da porta de nossa casa. E esteve produzida todas as vezes que dali para frente a vi.

Apareceu mais amiúde depois que minha irmã deixou de vir por uma noite ou duas seguidas. Depois da segunda semana minha mãe se pôs aflita. Marta saiu com ela dali para frente enquanto havia esperança de encontrarem minha irmã em algum hospital, alguma delegacia de polícia, algum antro. Depois foi com minha mãe procurar por minha irmã no necrotério.

Marta apreciava o infinito. No imenso descampado feito pelas máquinas para a construção do aeroporto, punha-me no chão, sentava-se ao meu lado nas noites cálidas enfeitadas por estrelas. Dizia que muitos daqueles pontinhos de luz provinham de corpos luminosos que há milhares de anos já não existiam.

— Lá você está vendo uma coisa que não existe!

— Como não existe se estou vendo?

— Está vendo somente o efeito. Somente a luz que um dia se produziu no universo. A luz que por muito, muito tempo ainda, continuará orientando os caminhantes por terras e por mares.

Foi Marta quem mais se alegrou quando ganhei minha cadeira de rodas. Mais até do que minha mãe, que ao longo da vida o que mais fez foi chorar.

— Agora você pode aprender a usar as mãos movendo as rodas de sua liberdade de ir e vir – disse-me Marta ao me por sobre a cadeira.

E eu, que nasci sem minhas duas pernas, deixei de ser um toco de gente.

Ainda vejo Marta quando vejo o verde. Amo essa cor.

E ainda é a luz de Marta quem me orienta e conduz.