sábado, 20 de novembro de 2010
Dormia algures
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Reecontro
(Texto de Avelino F Menck)
Gentilmente cedido para Venturas do Viver)
Subia apressadamente a rua em direção à Sabesp. O aclive em curva ainda é bem acentuado. À medida que andava, vinham-lhe à mente recordações do tempo de adolescência. A única piscina da cidade, a do Dr. Arruda tão bem cuidada pelo sr Romão, ficava perto de onde ele estava.
Com o sr. Romão, as lembranças de um incidente: brincando na piscina, a imagem vem-lhe bem clara,salvara a vida de uma menina, também, adolescente. Linda menina, mas o nome não lembrava, só que era "de fechar o comércio" como se dizia à época.
Tentou apagá-las pois não havia tempo para isso. Tinha uma obrigação, hora marcada, por isso a pressa. Contudo, a emoção provocada foi muito forte.
A garganta ressequida, muito calor, a dor repentina, o braço já um tanto dormente. Seu médico já o avisara: "O coração já não anda lá essas coisas! Cuidado!"
O trabalho. A hora. Atrasado.
Solteiro vivia só desde que perdera os pais. Não se cuidava. Não tinha o porquê! Mas a dor! Esta aumentava naquele momento. "Dói, coração!Calejado...mas humano" dizia para si. A falta de ar. O peito arrebentando. O antebraço latejando muito. Sentou-se na calçada. Já não enxergava mais nada. Parecia ouvir vozes muito ao longe. Seriam sirenes?
Acordou em lugar completamente estranho. Uma mulher de branco. Uma vaga lembrança. Seria Médica?
— "Não se recorda de mim, Padre"?
"Padre"...poucos o chamavam assim na juventude. Fora coroinha no tempo do Padre Celso, daí o cognome. Mas ela, ela sim, sempre o chamara pelo apelido.
"Heliena! menina que salvara na piscina. Sua eterna paixão. A neta do Sr. Romão!
Felizes, riram muito ,e, entre recordações e carinhos: abraços e muitos beijos.
O fim de um longo celibato.
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
Marta

Em nossa casa a primeira pessoa a pronunciar o nome de Marta foi minha mãe. Da janela, de onde me descrevia as alterações ao redor, disse que a frente da casa tinha agora a cor verde. Perguntei se gostaríamos do verde e ela, curvando-se ao meu lado, disse num sorriso triste:
— A casa foi alugada. A nova moradora nos mostrará se gostaremos ou não da nova cor.
— Quem alugou a casa?
— O nome dela é Marta!
Quase todas as informações eram colhidas no ponto de ônibus ou na mercearia. Nosso bairro era antigo, distante, e estava contaminado por uma febre que já havia levado dali os moradores tradicionais. Onde no passado os imigrantes jogaram os alicerces das primeiras casas de nossa cidade, as máquinas, aplainando, criaram um vasto campo desolado para a construção do aeroporto. Enfrentando um processo de desapropriação injusto os moradores arribaram para locais ainda mais distantes. Nós permanecemos ali porque minha mãe não queria morrer em outro lugar.
Minha irmã não havia voltado para a casa da patroa. Do quarto disse qualquer coisa que não entendi direito. Ela agredia resmungando e em geral muito zangada. Depois minha mãe disse a ela que talvez Marta soubesse que o bairro estava condenado. Teria alugado a casa por pouco tempo.
A patroa de minha irmã a cobria de mimos. Fazia dela a beneficiária das roupas da filha, quase sem uso, e a ela vendia pela metade do preço algumas utilidades ainda na embalagem original. Minha mãe tentava ensinar lealdade à minha irmã fazendo notar que não era justo vir por uma noite e não voltar ao trabalho na manhã seguinte. Dava de ombros, insistia em lembrar seu desejo de trabalhar no comércio, transformar-se em balconista, esquecer para sempre que fora doméstica. Eu torcia francamente por ela, o meu coração ficava bastante oprimido em razão daquela forma de pensar de minha mãe. A nossa lealdade para com os que possuíam alguma coisa nunca fora até então correspondida e embora a patroa de minha irmã fosse um tipo mão aberta, o seria enquanto lhe interessassem os préstimos da empregadinha. Eu também sonhava com o dia em que minha irmã pudesse ir linda para o trabalho, produzida como nas noites em que saia para dançar.
Marta estava produzida quando a vi pela primeira vez na moldura da porta de nossa casa. E esteve produzida todas as vezes que dali para frente a vi.
Apareceu mais amiúde depois que minha irmã deixou de vir por uma noite ou duas seguidas. Depois da segunda semana minha mãe se pôs aflita. Marta saiu com ela dali para frente enquanto havia esperança de encontrarem minha irmã em algum hospital, alguma delegacia de polícia, algum antro. Depois foi com minha mãe procurar por minha irmã no necrotério.
Marta apreciava o infinito. No imenso descampado feito pelas máquinas para a construção do aeroporto, punha-me no chão, sentava-se ao meu lado nas noites cálidas enfeitadas por estrelas. Dizia que muitos daqueles pontinhos de luz provinham de corpos luminosos que há milhares de anos já não existiam.
— Lá você está vendo uma coisa que não existe!
— Como não existe se estou vendo?
— Está vendo somente o efeito. Somente a luz que um dia se produziu no universo. A luz que por muito, muito tempo ainda, continuará orientando os caminhantes por terras e por mares.
Foi Marta quem mais se alegrou quando ganhei minha cadeira de rodas. Mais até do que minha mãe, que ao longo da vida o que mais fez foi chorar.
— Agora você pode aprender a usar as mãos movendo as rodas de sua liberdade de ir e vir – disse-me Marta ao me por sobre a cadeira.
E eu, que nasci sem minhas duas pernas, deixei de ser um toco de gente.
Ainda vejo Marta quando vejo o verde. Amo essa cor.
E ainda é a luz de Marta quem me orienta e conduz.
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Paralelas

(texto de Avelino Fernando Menck)
(Gentilmente cedido para Venturas do Viver)
Escrever...escrever...
Não havia muros na cidade que não tivesse recebido diferentes borrões de tinta. Adorava fazer isso em seus momentos de fuga da realidade.
Mestre de obras. Quarenta anos. Tranquilo. Não bebia, não fumava. Era de casa para o trabalho, do trabalho para casa. Não respeitava feriados. Aos domingos imaginava novas plantas. Por que não a de seu futuro lar?
Guapa bonita. Vinte e cinco anos. Ele a conhecera em uma lanchonete onde ela trabalhava há algum tempo. Sempre o servia nas vezes em que ele, ocasionalmente, procurava por lanches rápidos pois o trabalho não lhe permitia perda de tempo. Precisava construir.
Secretária boa e eficiente ele a tinha. Assinava muitos documentos sem ler, tal
era o grau de segurança no trabalho desenvolvido por ela. O trabalho - dela- era estafante. O tempinho que ele tinha, andava pela cidade a ver as novidades: muros e paredes limpinhos.
Suas horas de folga ele agora as consumia na companhia de tão doce namorada a quem mostrava todos os seus projetos, incluindo aquele que construía, talvez para ela. E pensava:" Vou construir a minha, na felicidade dela...muito bom".
Certa manhã acordou com um tumulto na rua. "Ainda bem que pegaram o moleque". "Que cara! Pichando coisas obscenas!" "Se fosse meu filho além de apanhar, teria que pintar tudo novamente". Deveria haver uma lei que proibisse tais atos" " Pois é nosso prefeito é um "bundão" - emendou alguém da oposição.
Aquela noite veio-lhe lembrança de seus desesseis/desesste anos. Surgiu em sua mente a antiga namorada, seu primeiro amor, que lhe ensinara a arte de pichar. Peripécias mil na arte! Aonde andaria! Ah saudades! Bons tempos! Esperou a madrugada chegar e saiu.
Naquela tarde a saudade apertou. Voltou mais cedo para casa querendo fazer surpresa agradável, entrou sem fazer barulho. Risos no quarto. Um voz masculina se misturava a dela.
Tinta na mão. Diferentes cores.
Bebeu. Bebeu muito.
Quase manhã. Estava pondo assinatura no maravilhoso trabalho. "Saudoso". Prestes a grafar "oso", ouviu uma voz conhecida e gelou."
A secretária discou 190 e botou a boca no mundo.
sábado, 11 de setembro de 2010
Pistas

(Texto de Avelino Fernando Menck)
(Gentilmente cedido para Venturas do Viver)
Acordou sozinho no hospital. Cabeça enfaixada, braço e perna engessados. Um estrago considerável. Na mão livre sua carteira e um bilhete "Na próxima não seja tão afoito. Levei trezentos pela peça rasgada". À medida que o efeito das anestesias e drogas passava, ele recordava o incidente.
Naquela manhã, acordara sentido um suave perfume que não lhe era muito familiar. Sobre sua cabeça, pequena peça de roupa rendada, parte superior de sensual pijama feminino. Aspirou mais uma vez o perfume esfregando-a pelo rosto e só então percebeu que estava sem companhia
Sentou na cama espreguiçando-se, e, dirigindo o olhar para a porta do quarto, como se a procurasse, deparou com a parte inferior do pijama pendurado na maçaneta. Levantou-se, apanhou a peça levando-a de encontro ao peito. Só então percebeu sua nudez.
Abriu a porta, um soutien de levíssimo tecido descansava no corredor não muito longo. Caminhou até ele e, brincando, colocou a alças nos ombros como se o vestisse.O perfume ainda impregnado na peça inebriou-o mais uma vez. Fechou os olhos sonhando.
No chão, em frente à porta entreaberta do banheiro, a última peça: branca, transparente e pequena. Uma voz cantarolava "When I need you" e ouvia-se o ruído relaxante da água que enchia a banheira.
Abriu a porta vagarosamente e a viu, totalmente imerso em espumas, apenas o belo rosto à flor da água. "Entre amor, estava te esperando". Foi a última coisa que ouviu antes do escorregão.
quinta-feira, 15 de julho de 2010
AZIZA
Todos os dias a mãe a levava ao mercado, na cidade de Cabul.
Deixava-a circulando pelos corredores, maravilhando-se com as quinquilharias postas a venda nos diversos Box. Tinha recomendações expressas para que não aceitasse convites e nunca se afastasse dali, sozinha ou acompanhada. A mãe passava o dia exercendo a profissão que abraçara depois da morte do marido.
Aziza não podia compreender as regras daquela sociedade onde a mãe, em determinados ambientes, podia rir e festejar com pessoas que, em público, passavam por ela virando o rosto. Em publico, nem mesmo um olhar de asco semelhante ao que sempre é lançado ao lixo que se acumula nas calçadas.
Em público não era nem mesmo uma desconhecida; era inexistente!
O pai lhe dissera da existência de fadas. Contara sobre certas condições nas quais uma criança pode merecer a atenção de um duende. Num futuro, que não estaria muito distante, um ente encantado a levaria ao estrangeiro oferecendo os meios para instruir-se e vir-a-ser uma pessoa de influências em algum Órgão Internacional, como a ONU. Quando se mostrava ansiosa pela vinda do ente benfeitor, o pai a acariciava com ternura, procurando distraí-la.
-- Menina querida, tudo tem seu tempo!
Vieram mesmo muitos tempos, um dos quais lhe levou o pai para sempre.
Ela e a mãe foram ver o corpo, que entre outros corpos, foi retirado da carroçaria do carro de guerra, entre os muros, no cemitério. A cabeça estava toda coberta por panos manchados de sangue e o pai estava descalço como sempre andara antes da guerra. A roupa que usava era de soldado. Melhor do que as de seu dia-a-dia antes da guerra. Lá no céu o Sol reinava absoluto emitindo sua luz tão branca e tão capaz de transformar as areias em um manto de brasa.
Entre as poucas pessoas que se reuniram no cemitério na ocasião havia um dos lideres religiosos a proclamar a bonde de Ala. Uma bondade terrível! Em conseqüência daquela bondade, o pai era agora apenas uma saudade doída em seu coração infantil.
Alguns meses depois a mãe arrumou aquele seu trabalho. Elas duas passaram a percorrer juntas as ruas pela manhã, em direção ao mercado. E ela passou a percorrer algumas vezes sozinha as mesmas ruas de volta para casa ao cair da noite.
Vinha tiritando de medo, atravessando as vielas onde apenas escombros contavam de habitações bombardeadas. Aziza tinha medo do resto de gente que se deixava ficar entre os entulhos na calçada, recolhendo esmolas. Era o que restava de um homem que lutara na frente de batalha ao lado do pai. A ele faltavam as duas pernas e um dos braços. Era um toco apenas.
Enquanto pela bondade de Alá o pai era uma saudade em seu coração, aquele resto de ser humano era um peso para seus familiares. E assim, Aziza, que jamais teve um livro em suas mãos, aprendeu a desistir de seus sonhos para glorificar a bondade infinita que existe nas sábias lições da vida objetiva.
E Aziza passou a desejar ardentemente que existissem as fadas com seus poderes para driblar os caprichos da vida.
A desejar que uma delas se encarregasse de vir numa noite de lua, ou numa linda manhã de sol. Um ente de amor que viesse, não para levá-la aos estudos e aos primeiros degraus de uma brilhante carreira diplomática, mas, sim, que viesse trazer conforto ao pobre mutilado.
O CARROSSEL
A porta de entrada, ainda que jamais escancarada, ela a encontrou sempre aberta necessitando apenas de um leve toque para afastar a folha e entrar. Em poucos dias familiarizou-se com o ambiente e com o inquilino a quem se habituou a vir quase todos os dias. Parecia-lhe ser um homem mais feliz do que infeliz. Passava muito tempo escrevendo. Quando não o via diante do monitor do micro era porque acarinhava as flores nos fundos do chalé. Se não o via em parte alguma nos arredores, o coração se inquietava, ela se consumia em mau humor que precisava ocultar. A ele dizia chorosa que o coração se enchia de preocupações, mas o que realmente lhe devorava a alma eram os ciúmes.
Via a alegria nos olhos dele em muitos momentos e com freqüência tinha absoluta certeza de que em parte a alegria lhe vinha em razão de sua presença. Ocasionalmente ele a levantava abraçando, rodava com ela negando-lhe por brincadeira os lábios para o beijo eufórico. Ela então vibrava intensamente e rodando suspensa nos braços dele fechava os olhos para sonhar girando num imaginário carrossel do amor.
Certas coisas que ele falava ela não compreendia, mas gostava de ouvir. Uma vez lhe falou sobre a mulher que passou com uma carroça muito carregada, carregada a tal ponto que em determinados trechos da trilha precisava ajudar puxando a carga pela corrente ao lado dos burros. Ela nunca soube se ele havia visto tal mulher com a carroça, e, se a vira, se a estava elogiando ou lastimando-lhe as escolhas. Era algumas vezes brincalhão como quando contou sobre a mulher que abraçou uma foca ao desejar sair para a areia, na praia.
Tinha uma coisa de bom. Sempre a fazia sentir-se pertencente e jamais se escondia das pessoas quando em passeios com ela. Nisso diferenciava-se da maioria dos homens com os quais já havia se relacionado e que não eram poucos apesar de sua pouca idade. Nos primeiros dias mentira para ele dizendo-lhe que dissera aos pais que passaria a noite na casa do namorado. De outro modo ele a teria levado para casa a despeito da noite escura e muito fria. Desmentiu alguns dias depois, sem ser pressionada a fazê-lo, pois ele nunca mais demonstrou preocupação pelo giro dos ponteiros arrastando as horas para dentro da noite. Mas a surpreendeu presenteando-a com uma flauta doce. Disse-lhe que não era difícil aprender. Soprando uma flauta, dissera-lhe ele, você será aos meus olhos um símbolo dos novos tempos. Ela pediu explicações. Estavam em um parque, sobre o gramado de um verde muito escuro aparado, próximos ao lago. Ele a levantou nos braços e girou com ela num ritmo quase alucinante, de sorte que ao deixá-la sobre o chão firme, precisou ampará-la para não cair como acometida por uma vertigem. Então a fez deitar-se e beijando-lhe os olhos disse:
-- Ao longo de milhares de anos, religiões e filosofias tornaram inevitáveis os movimentos feministas. Você pertence a uma nova humanidade que está surgindo, e, ainda que não saiba disso, anuncia a nova era ao seu modo.
-- Mas eu não sou feminista.
-- Não!Claro que não. Você é feminina.
-- Gosta assim?
-- Claro!
-- Então gosta de mim?
-- Por que não?
Ela sentia que sim. Fosse de outro modo não seria tão bom rolar com ele sobre o tapete da sala, nas noites mais quentes, arrepiando-se com os toques dos lábios e dos dentes dele mordiscando-lhe o lóbulo, a cavidade e a área posterior da orelha. Não! Não era como eram os outros quando lhe beijava a nuca e descia a mão acariciando-lhe as costas. Não era igual a ninguém quando lhe punha louca ao lhe beijar as partes internas das coxas, excitado e excitando-a sobre o carpete da sala.
O que ela não sabia é que ele se deixava vencer pelas premências da carne e por isso a tomava daquela forma. Não desejava vê-la um dia com as cargas físicas e emocionais da mulher da carroça, esquecida de amar em razão dos encargos atraídos sobre seus ombros pelos resultados dos movimentos feministas que alardeiam a libertação feminina. Ele a via menina com tanta estrada a avançar em sua caminhada e temia pelo que pudessem lhe fazer as pressões sociais, humilhando-a e levando-a a desistir de sua marcha, voltando como a foca que nunca se decidiu por ser um animal da terra ou do mar.
Tomando-a nos braços, sentia-se ele próprio como se posto por uma força estranha sobre os cavalos de um carrossel, completamente incapaz de impedir o movimento de sobe e desce no giro do tempo.
ASSIM MORREU ZENEIDE
A noite chegou preguiçosa, atrasada, depois de um dia que não queria passar.
As estrelas não apareceram logo. As nuvens espessas de pó e de fuligens desejaram poupá-las das imagens grotescas e dos guinchados do padre, exigindo dos guardas a retirada do corpo das escadarias. Eles dois, cada um segurando em um dos pés, arrastaram o defunto até um canto retirado do gramado. Cobriram com uma lona escura. Acreditavam que naquele caso a polícia técnica não se importaria com a remoção. Algumas pessoas aguardaram por mais de uma hora na esperança de que os pivetes fossem trazidos ao local pelas orelhas. Mas os próprios guardas lhes disseram que de nada adiantaria prendê-los e aos poucos os curiosos se dispersaram.
Zeneide morreu quando saia da igreja, nem soube que o Senhor a veio aliviar por intermédio dos pivetes. Nem eles desejavam atirar nela. Aconteceu. E foi somente isso, quer dizer, foi uma obra do destino, de cujos caprichosos desenhos ninguém está livre.
Foi menina danada, a Zeneide.
Arredia, calada, impossível de amestrar. Cresceu no barraco, nas imediações. Com dose anos de idade ela era dada a seguir as irmãs de caridade que por lá faziam suas rondas distribuindo alimentos, remédios, conselhos e santinhos. Ansiava então pela vinda do pai, ao cair da tarde, sentando-se no chão para acariciar as canelas dele. Parecia enamorada. O pai fazia questão de retribuir a atenção. Punha-a para dormir e não saia do quarto enquanto ela não estivesse dormindo a sono solto. Com o tempo ele começou a se esquecer daquele apego da menina. Então, um dia, ela criou coragem e pediu a uma das freiras para ver como era a embalagem dos preservativos. A freira desconfiou, mas considerou melhor estimular a prevenção. Alguns dias depois o homem que vendia revistas lhe disse em segredo que aquilo não era nem bom nem necessário. E que podia revender dando-lhe alguns trocados. Mas para isso ela precisava aprender a tirar das freiras uma ou duas fieiras completas.
Não era de juntar-se às pessoas, não era de brincar com os meninos que corriam pelas ruas enlameadas. Eles corriam girando aqueles arcos de barris, tocando-os com uma lasca de madeira escura. Não era de brincar com as meninas que batizavam bonecas, ou se expunham ao final da tarde, sentadas sobre a guarda da ponte e pondo a língua para os homens que passavam cansados, elogiando-as, formulando convites para carinhos na cama.
Não! Ela não se juntava a ninguém, preferindo olhar, distraída, para os cães que talvez superassem em número aos humanos que por ali consciente ou inconscientemente cumpriam os dias que a generosa vida lhes riscara nas estrelas. Tardes de sol se pondo avermelhado, avermelhando os telhados de zinco, os terreiros e as ruas de terra nua cortadas por esgoto a céu aberto. Era o pó que avermelhava o sol, ou era o sol vermelho que coloria a poluição, pondo franjas escarlates na fumaça negra das chaminés fabris?
O pai já havia desaparecido quando Zeneide começou a inchar. O homem da banca passara a ser defunto por obra de uma bala perdida. Os meninos riam dela e abaixavam as calças para ela, insultando-a
Quando a criança nasceu, veio ao mundo deficiente. Os pezinhos tortos, as perninhas frágeis, sendo uma visivelmente menor que a outra.
Zeneide chorou durante quase todo o primeiro ano. Com a criança no colo, ou acavalada em seu quadril, iniciou as novenas implorando a todos os santos pela cura milagrosa. A criança não andou antes do segundo ano. Nunca andaria como as outras crianças. Praticamente arrastava-se.
No início da noite, enquanto a menina dormia, Zeneide ia à igreja, implorar aos santos uma intervenção junto ao destino. Queria que a filha pudesse pelo menos andar, mesmo que continuassem tortos os pezinhos. Bastava corrigir a atrofia dos músculos.
Ia à igreja no início da noite a conselho do padre. Ele queria poupá-la dos falatórios das carolas na hora da reza do terço. Eram pias demais as carolas. Elas acreditavam que a presença de Zeneide na igreja, na hora da reza, era um insulto ao Santíssimo, a fonte do amor e da misericórdia. E não era conveniente que ela continuasse a vir à sacristia. O padre era o pastor de todas as almas e não podia se dedicar a uma só ovelha. Tanto mais uma ovelhinha que vivia perdendo coisas por ali.
Por ser cabeça dura Zeneide nunca entendeu o que o padre quis dizer com aquele ‘perdendo coisas por ali’. Mas o padre era inteligente e sabia o quanto fora exposto ao constrangimento perante a freira. Sentira-se instado a explicar o aparecimento da embalagem contendo uma camisinha entre seus pertences. Tinha a marca de distribuição feita pelas freiras. Zeneide a deixara cair na nave do templo!
Assim morreu Zeneide. Alguém há de contar como sobreviveu a filha, que ficou sozinha aos dois anos de idade em nosso mundo tão pleno de amor.
A noite chegou preguiçosa, atrasada, depois de um dia que não queria passar.
As estrelas não apareceram logo. As nuvens espessas de pó e de fuligens desejaram poupá-las das imagens grotescas e dos guinchados do padre, exigindo dos guardas a retirada do corpo das escadarias. Eles dois, cada um segurando em um dos pés, arrastaram o defunto até um canto retirado do gramado. Cobriram com uma lona escura. Acreditavam que naquele caso a polícia técnica não se importaria com a remoção. Algumas pessoas aguardaram por mais de uma hora na esperança de que os pivetes fossem trazidos ao local pelas orelhas. Mas os próprios guardas lhes disseram que de nada adiantaria prendê-los e aos poucos os curiosos se dispersaram.
Zeneide morreu quando saia da igreja, nem soube que o Senhor a veio aliviar por intermédio dos pivetes. Nem eles desejavam atirar nela. Aconteceu. E foi somente isso, quer dizer, foi uma obra do destino, de cujos caprichosos desenhos ninguém está livre.
Foi menina danada, a Zeneide.
Arredia, calada, impossível de amestrar. Cresceu no barraco, nas imediações. Com dose anos de idade ela era dada a seguir as irmãs de caridade que por lá faziam suas rondas distribuindo alimentos, remédios, conselhos e santinhos. Ansiava então pela vinda do pai, ao cair da tarde, sentando-se no chão para acariciar as canelas dele. Parecia enamorada. O pai fazia questão de retribuir a atenção. Punha-a para dormir e não saia do quarto enquanto ela não estivesse dormindo a sono solto. Com o tempo ele começou a se esquecer daquele apego da menina. Então, um dia, ela criou coragem e pediu a uma das freiras para ver como era a embalagem dos preservativos. A freira desconfiou, mas considerou melhor estimular a prevenção. Alguns dias depois o homem que vendia revistas lhe disse em segredo que aquilo não era nem bom nem necessário. E que podia revender dando-lhe alguns trocados. Mas para isso ela precisava aprender a tirar das freiras uma ou duas fieiras completas.
Não era de juntar-se às pessoas, não era de brincar com os meninos que corriam pelas ruas enlameadas. Eles corriam girando aqueles arcos de barris, tocando-os com uma lasca de madeira escura. Não era de brincar com as meninas que batizavam bonecas, ou se expunham ao final da tarde, sentadas sobre a guarda da ponte e pondo a língua para os homens que passavam cansados, elogiando-as, formulando convites para carinhos na cama.
Não! Ela não se juntava a ninguém, preferindo olhar, distraída, para os cães que talvez superassem em número aos humanos que por ali consciente ou inconscientemente cumpriam os dias que a generosa vida lhes riscara nas estrelas. Tardes de sol se pondo avermelhado, avermelhando os telhados de zinco, os terreiros e as ruas de terra nua cortadas por esgoto a céu aberto. Era o pó que avermelhava o sol, ou era o sol vermelho que coloria a poluição, pondo franjas escarlates na fumaça negra das chaminés fabris?
O pai já havia desaparecido quando Zeneide começou a inchar. O homem da banca passara a ser defunto por obra de uma bala perdida. Os meninos riam dela e abaixavam as calças para ela, insultando-a
Quando a criança nasceu, veio ao mundo deficiente. Os pezinhos tortos, as perninhas frágeis, sendo uma visivelmente menor que a outra.
Zeneide chorou durante quase todo o primeiro ano. Com a criança no colo, ou acavalada em seu quadril, iniciou as novenas implorando a todos os santos pela cura milagrosa. A criança não andou antes do segundo ano. Nunca andaria como as outras crianças. Praticamente arrastava-se.
No início da noite, enquanto a menina dormia, Zeneide ia à igreja, implorar aos santos uma intervenção junto ao destino. Queria que a filha pudesse pelo menos andar, mesmo que continuassem tortos os pezinhos. Bastava corrigir a atrofia dos músculos.
Ia à igreja no início da noite a conselho do padre. Ele queria poupá-la dos falatórios das carolas na hora da reza do terço. Eram pias demais as carolas. Elas acreditavam que a presença de Zeneide na igreja, na hora da reza, era um insulto ao Santíssimo, a fonte do amor e da misericórdia. E não era conveniente que ela continuasse a vir à sacristia. O padre era o pastor de todas as almas e não podia se dedicar a uma só ovelha. Tanto mais uma ovelhinha que vivia perdendo coisas por ali.
Por ser cabeça dura Zeneide nunca entendeu o que o padre quis dizer com aquele ‘perdendo coisas por ali’. Mas o padre era inteligente e sabia o quanto fora exposto ao constrangimento perante a freira. Sentira-se instado a explicar o aparecimento da embalagem contendo uma camisinha entre seus pertences. Tinha a marca de distribuição feita pelas freiras. Zeneide a deixara cair na nave do templo!
Assim morreu Zeneide. Alguém há de contar como sobreviveu a filha, que ficou sozinha aos dois anos de idade em nosso mundo tão pleno de amor.
segunda-feira, 5 de abril de 2010
Tahyma
Nas proximidades do povoado de Fadel, na encosta da montanha, a noite entregou Dhan aos primeiros clarões do novo dia.
O lugarejo a que ele agora adentrava montado em seu cavalo negro era um dos últimos rumo ao território Persa, objetivo de sua caminhada. Eram poucas residências esparsas, com população provavelmente igual ou inferior aos forasteiros, pessoas de diversas raças e credos que para ali acorriam acampando à margem da trilha. Pessoas interessadas nos assuntos relativos à formação das caravanas. De repente, a quinhentos metros do acampamento, surgiu meia dúzia de meninos correndo pela trilha na direção de Dhan. Tentando alcançá-los na corrida, dois rapazes praguejavam atirando pedras contra o grupo. A perseguição terminou inopinadamente. Os rapazes voltaram ao acampamento gesticulando e emitindo gritos. Os meninos, protegidos por trás da montaria de Dhan, quedaram resfolegando e amedrontados.
Foram os pequenos larápios que indicaram a Dhan a trilha para a residência de Fadel. Era uma casa de pedra no alto de um morro. Vesgo, aparentemente frágil, Fadel reunia experiência e habilidade para o trato com todo tipo de mercador. Em suas primeiras palavras expressou admiração pela coragem demonstrada por Dhan ao viajar durante a noite e sozinho, passando por regiões montanhosas com risco de ser atacado pelos assaltantes assassinos. Dhan agradeceu pelas palavras generosas, mas compreendeu claramente o sentido de admoestação que continham. Por alguns dias ocupou um cômodo pequeno e abafado nos fundos da residência e teve a companhia constante de Fadel sempre que a desejou para descer ao acampamento.
Nas longas horas dos dias o calor era quase insuportável. Com o vento aquecido no deserto vinham partículas de areia. Atingiam os olhos, a boca, impregnavam-se na pele, constituíam camadas finas de poeira sobre todas as coisas. O acampamento era permanentemente tomado por muito barulho, movimentação de animais, de carroças e de cargas. De um momento para outro podiam surgir impropérios e empurrões. Os mais rudes e exaltados tentavam resolver suas pendências trocando socos. Pelo acampamento circulavam ladrões sobre os quais era preciso estar permanentemente de olho. Nesse clima emocional formavam-se as caravanas que ao longo de vários meses avançariam lentamente em direção a vários destinos. Elas saiam uma após outra, geralmente ao amanhecer. Dhan ansiava por partir também, mas as negociações com os diversos guias eram difíceis. Os preços exigidos eram muito elevados para suas posses. Quando os preços eram razoáveis a expressão facial de Fadel indicava perigo e Dhan não fechava acordo.
Felizmente havia divertimento por ali. Havia os jogos. As disputas de forças nos braços. E havia os mágicos, os malabaristas, as jovens bailarinas em espetáculos improvisados, exibindo suas delicadas curvas em apresentações coloridas e eróticas ao som de músicas magistralmente executadas por exímios artistas.
Em alguns dias Dhan havia por assim dizer gravado em sua mente a posição de pedra por pedra na trilha que o conduzia à residência de Fadel. Caminhavam sempre à pé, lado a lado, regando uma amizade sincera que nasceu da admiração mútua. Desciam pela manhã. Retornavam muitas vezes sob a luz das estrelas. O moço caminhava sonhando com sua integração em uma das caravanas, imaginando encontrar em algum ponto distante a vocação de sua alma. O mais velho caminhava consciente de que a felicidade pode estar a dois centímetros de nossos olhos e ainda assim não termos a percepção de sua presença. Ou não reunirmos em nós o merecimento necessário para conquistá-la.
Fadel abdicara de seu sonho de riquezas materiais por ocasião do nascimento da filha. Era uma criança muito viva, muito alegre. As longas jornadas exigidas de um mercador mantinham Fadel longe daquele riquíssimo tesouro por meses e meses. Ele abandonou os negócios, desfez sua rede de fornecedores e fregueses. Preferiu permanecer no vilarejo cuidando de suas cabras, abençoando todos os dias o desenvolvimento natural da filha. Quando a menina cresceu revelando o espírito reservado, uma desarmonia velada com a madrasta a mantinha cada vez mais hermética em relação aos seus sentimentos. Um dia a moça desapareceu. Fadel descobriu assim que mesmo abdicando de todos os seus interesses pessoais, mesmo que lhe desse a própria vida, não a teria jamais consigo. Dela restaram em poder de Fadel alguns pertences incluindo uma foto estampada em um cartão postal.
-- Esta era a imagem de minha Tahyma – disse ele com os olhos marejando.
A partir de então a imagem semelhante a da foto apareceu nos sonhos de Dhan em flashes aleatórios, impressionando de tal forma sua mente consciente que ele passou a ‘vê-la’ nitidamente por todo canto. Algumas vezes perdia o sono. O cubículo que ocupava tornava-se opressivo demais, abafado, com o ar viciado. Ele então procurava sair silencioso ao relento para sozinho contemplar o céu estrelado. Nos brilhos de uma estrelinha, ele via os olhos de Tahyma. Não da Tahyma da estampa do cartão postal. Ele não a conhecera tão menina. A Tahyma que teimava em permanecer diuturnamente em sua companhia, ele a conhecera nas trilhas pelas quais havia passado. Ele a havia beijado à luz da Lua. Ela o havia acarinhado e em noites encantadas, trocando juras de amor, haviam saciado seus desejos mútuos cobertos unicamente pelo manto estrelado de um céu de paz e de amor.
Felizmente jamais falou a Fadel a respeito daqueles seus sentimentos que encantavam e ao mesmo tempo afligiam sua alma. Então houve uma noite em que desceu sozinho e, nas proximidades do acampamento, deparou-se com cenas que o levaram a tomar a decisão que mudaria totalmente seu destino. Ao entrar em um antro viu um homem extremamente rude se divertir com uma jovem prostituta. Seu palavreado de baixo calão produzia ferimentos profundos como os produzidos pelo gume de um punhal. E não obstante, ela reagia rindo, acarinhando, excitando.
Dhan não foi nunca um santo. O odor de mulher o atraia desde sua puberdade e naquela ocasião estava há muitos meses sem tocar em um corpo feminino. Mas naquele antro a garota exalava o odor azedo da falta de higiene. Ela na realidade fedia. Apresentava curtos cabelos ensebados, duros. De um momento para outro o homem a empurrou de seu colo atirando-a ao chão. E pondo-se em pé, gargalhou dizendo com desprezo:
-- Vadia! Tão menina e já com boceta de puta velha!
Dois homens, certamente a serviço de Fadel, seguraram Dhan. Um deles recebeu no peito o soco com que o rapaz teria agredido o brutamonte.
-- Tolo! – disse o protetor a um Dhan quase fora de si pela raiva - Não entregue a sua vida assim, tão gratuitamente. Ele a maltrata e ela o prefere a você que pretende impedi-la de viver suas emoções e fantasias. Você ainda é muito verde para saber até onde pode se desmerecer por si mesma uma mulher destituída de um horizonte. Ainda não sabe que o mundo é dos ousados?
Com efeito. Levantando-se, a moça passou por Dhan com expressão de asco. Rindo, mulheres se aproximaram do garanhão acarinhando-o. O homem emitia gritinhos de vitória. E a garota hostilizada no minuto anterior ajoelhou-se a seus pés abrindo-lhe a braguilha. Ele urrou satisfeito:
-- Suga, cadela!
Na manhã seguinte Dhan se despediu de Fadel a quem declarou haver desistido de prosseguir no rumo das maravilhas que existiriam na Pérsia.
Fadel o viu partir em seu cavalo relativamente bem amanhado. Por mais que o estimasse, não pode deixar de recriminá-lo intimamente. Considerou-o inconstante em suas buscas, deixando-se vencer pelos primeiros sinais de entraves no caminho que poderia levá-lo a muitas glórias caso fosse capaz de lutar bravamente por seus ideais.
Dhan cavalgou com o coração pulsando forte, percorrendo o caminho de volta.
Em algum lugar, ao longo da rota, haveria de reencontrar Tahyma. E em nome do amor, proporcionar proteção, carinho e muita compreensão. Ela talvez não se interessasse mais por ele. Ela talvez o recusasse. Ele e seu amor seriam provavelmente rejeitados. Pouco importa. Ele havia descoberto que a amava e que seu amor, mesmo rejeitado, poderia vir a ser um horizonte.
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
Apenas os traços de um eterno conto de amor

domingo, 26 de julho de 2009
Raio de Sol
Montagem e formatação reginaLUTubes de Mou e Luz Cristina, recebidos em grupos de trocas.

