terça-feira, 14 de junho de 2011

Todas as coisas, na Terra, passam…

Os dias de dificuldades, passarão…
Passarão também os dias de amargura e solidão…
As dores e as lágrimas passarão.
As frustrações que nos fazem chorar, um dia passarão.
A saudade do ser querido que está longe, passará.
Dias de tristeza… Dias de felicidade…
São lições necessárias que, na Terra, passam, deixando no espírito imortal as experiências acumuladas.
Se hoje, para nós, é um desses dias repletos de amargura, paremos um instante.
Elevemos o pensamento ao alto, e busquemos a voz suave da Mãe amorosa a nos dizer carinhosamente:
”Isso também passará… “
E guardemos a certeza, pelas próprias dificuldades já superadas, que não há mal que dure para sempre.
O planeta Terra, semelhante a enorme embarcação, às vezes parece que vai soçobrar diante das turbulências de gigantescas ondas.
Mas isso também passará, porque Jesus está no leme dessa Nau, e segue com o olhar sereno de quem guarda a certeza de que a agitação faz parte do roteiro evolutivo da humanidade, e que um dia também passará…
Assim, façamos a nossa parte o melhor que pudermos, sem esmorecimento, e confiemos em Deus, aproveitando cada segundo, cada minuto que, por certo….também passarão.

Emmanuel



  •  
Fico triste quando alguém me ofende, mas, com certeza, eu ficaria mais triste se fosse eu o ofensor... Magoar alguém é terrível!
Chico Xavier

sábado, 2 de abril de 2011

AMAR

Amar


________________________________________



Que amem.
Quando nós queremos ser amados, ainda somos crianças psicológicas.
Quando nós amamos, atingimos a plenitude.
Quando alguém nos persegue, está doente.
Quando nós perseguimos, estamos mal.
Se nos fazem mal, esse mal não nos alcança porque o mal só tem vigência naquele que o cultiva.
Seja você quem ama.
Dispute a honra de amar. Não tema o amor.
Quando nós amamos, uma estrela de paz brilha em nosso coração e a felicidade irradia-se como perfume.
Quando queremos ser amados, ainda temos caprichos, temos impositivos, temos perturbações.
O amor, diz Joanna de Ângelis, é a alma de Deus, porque Deus é a alma do amor.

Mensagem de Divaldo Pereira Franco

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Linda Rosa

Pior que o melhor de dois
Melhor do que sofrer depois
Se é isso que me tem ao certo
A moça de sorriso aberto
Ingênua de vestido assusta
Afasta-me do ego imposto
Ouvinte claro, brilho no rosto
Abandonada por falta de gosto
Agora sei não mais reclama
Pois dores são incapazes
E pobres desses rapazes
Que tentam lhe fazer feliz
Escolha feita inconsciente
De coração não mais roubado
Homem feliz, mulher carente
A linda rosa perdeu pro cravo
Pior que o melhor de dois
Melhor do que sofrer depois
Se é isso que me tem o certo
A moça de sorriso aberto
Ingênua de vestido assusta
Afasta-me do ego imposto
Ouvinte claro, brilho no rosto
Abandonada por falta de gosto
Agora sei não mais reclama
Pois dores são incapazes
E pobres desses rapazes
Que tentam lhe fazer feliz
Escolha feita inconsciente
De coração não mais roubado
Homem feliz, mulher carente
A linda rosa perdeu pro cravo
Homem feliz, mulher carente
A linda rosa perdeu pro cravo
Composição: Gugu Peixoto / Luis Kiari
Cantada por: Maria Gadu

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Gatinha manhosa...

Meu bem
Já não precisa
Falar comigo
Dengosa assim...

Briga, para depois
Ganhar mil carinhos de mim
Se eu aumento a voz
Você faz beicinho
E chora baixinho
E diz que a emoção
Dói seu coração...

Já, não acredito
Se você chora
Dizendo me amar
Eu sei que na verdade
Carinhos você quer ganhar...

Um dia gatinha manhosa
Eu prendo você
No meu coração
Quero ver você
Fazer manha então
Presa no meu coração
Quero ver você...
(Erasmo Carlos )

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Haja o que houver ,sempre estarei ao seu lado.....

Na Romênia , um homem dizia sempre a seu filho:
 - Haja o que houver, eu sempre estarei a seu lado.

 Houve, nesta época um terremoto de intensidade muito grande, que quase alisou as
 construções lá existentes nesta época. Estava nesta hora este homem em uma estrada.

 Ao ver o ocorrido, correu para casa e verificou que sua esposa estava bem, mas seu
 filho nesta hora estava na escola.
 Foi imediatamente para lá.

 E a encontrou totalmente destruída. Não restou, uma única parede de pé. Tomado de
 uma enorme tristeza. Ficou ali ouvindo, a voz feliz de seu filho e sua promessa
 (não cumprida), "Haja o que houver, eu estarei sempre a seu lado".

 Seu coração estava apertado e sua vista apenas enxergava a destruição. A voz de
 seu filho e sua promessa não cumprida, o dilaceravam.

 Mentalmente percorreu inúmeras vezes o trajeto que fazia diariamente segurando sua
 mãozinha. O portão (que não mais existia); corredor. Olhava as paredes, aquele rostinho
 confiante. Passava pela sala do 3º ano , virava o corredor e o olhava ao entrar.

 Até que resolveu fazer em cima dos escombros, o mesmo trajeto. Portão, corredor, virou
 a direita e parou em frente ao que deveria ser a porta da sala. Nada! Apenas uma pilha
 de material destruído. Nem ao menos um pedaço de alguma coisa que lembrasse a
 classe. Olhava tudo desolado.

 E continuava a ouvir sua promessa:
 "Haja o que houver, eu sempre estarei com você".

 E ele não estava... Começou a cavar com as mãos. Nisto chegaram outros pais, que
 embora bem intencionados, e também desolados, tentavam afastá-lo de lá dizendo:
 - Vá para casa. Não adianta, não sobrou ninguém.
 - Vá para casa.

 Ao que ele retrucava:
 - Você vai me ajudar?

 Mas ninguém o ajudava, pouco a pouco, todos se afastavam. Chegaram os policiais, que
 também tentaram retirá-lo dali, pois viam que não havia chance de ter sobrado ninguém
 com vida.
 Existiam outros locais com mais esperança. Mas este homem não esquecia sua promessa
 ao filho, a única coisa que dizia para as pessoas que tentavam retirá-lo de lá era:
 - Você vai me ajudar?

 Mas eles também o abandonavam. Chegaram os bombeiros, e foi a mesma coisa...
 - Saia daí, não está vendo que não pode ter sobrado ninguém vivo?

 Você ainda vai por em risco a vida de pessoas que queiram te ajudar pois continuam
 havendo explosões e incêndios.
 Ele retrucava :
 - Você vai me ajudar?
 - Você esta cego pela dor não enxerga mais nada.
 - Você vai me ajudar?

 Um a um todos se afastavam. Ele trabalhou quase sem descanso, apenas com pequenos
 intervalos mas não se afastava dali. 5h / 10h / 12h / 22h / 24h / 30h .
 Já exausto, dizia a si mesmo que precisava saber se seu filho estava vivo ou morto.
 Até que ao afastar uma enorme pedra, sempre chamando pelo filho ouviu:
 - Pai... estou aqui!

 Feliz fazia mais força para abrir um vão maior e perguntou:
 - Você esta bem?
 - Estou. Mas com sede, fome e muito medo.
 - Tem mais alguém com você?
 - Sim, da classe, 14 estão comigo estamos presos em um vão entre dois pilares.
 - Estamos todos bem.

 Apenas conseguia ouvir seus gritos de alegria.
 - Pai, eu falei a eles: Vocês podem ficar sossegados, pois meu pai irá nos achar.
 - Eles não acreditavam, mas eu dizia a toda hora...
 - Haja o que houver, meu pai, estará sempre a meu lado.
 - Vamos, abaixe-se e tente sair por este buraco .
 - Não! Deixe eles saírem primeiro...
 - Eu sei; que haja o que houver...
 - Você estará me esperando!

                          (autor desconhecido)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Enquanto houver sol...



Quando não houver saída
Quando não houver mais solução
Ainda há de haver saída
Nenhuma idéia vale uma vida...
Quando não houver esperança
Quando não restar nem ilusão
Ainda há de haver esperança
Em cada um de nós
Algo de uma criança...
Enquanto houver sol...

Ainda haverá
Enquanto houver sol
Enquanto houver sol...
Quando não houver caminho
Mesmo sem amor, sem direção
A sós ninguém está sozinho
É caminhando
Que se faz o caminho...
Quando não houver desejo
Quando não restar nem mesmo dor
Ainda há de haver desejo
Em cada um de nós
Aonde Deus colocou...
Composição: Sérgio Britto

sábado, 20 de novembro de 2010

Dormia algures


DORMIA ALGURES

Dormia algures, disseram-me algumas vezes. E eu não me lembro de uma única vez em que esse detalhe tenha instigado minha curiosidade.

Eu o percebia algumas vezes aluado a me saudar aos gritos, com palavras que denotavam bom humor e amizade. Era como se desejasse compartilhar seus momentos, seus passos na estrada do existir, se deixando levar de roldão pelas escolhas que em seu lugar fazia-lhe a vida.

E nem mesmo essa impressão que dele eu tinha moveu-me a questionar os seus costumes. Ele existia, estava por ali algures. De um momento para outro eu podia vê-lo e responder às suas saudações, também com ares alegres, mas sem assumir compromissos.

Isso me bastava.

E aconteceu de me perguntar onde se alimentavam os cães de rua.

Onde mitigavam a sede? Onde se abrigavam da chuva?

Mas isso aconteceu em um momento em que meu coração se deixou levar por pena. Pena dos cães abandonados! Não era amor, era uma angústia apenas.

E então, assim sem mais nem menos, eu me dei conta da pobreza imensa de meus sentimentos para com aquele que aos gritos me saudava alegre. Eu percebi que podia me condoer com a má sorte dos cães, mas não me afetava o caminhar de um ser humano.

Um ser humano que visivelmente se alegrava pelo simples fato de me ver e de sentir minha existência.

 

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

SUTILMENTE...




E quando eu estiver triste
Simplesmente me abrace
Quando eu estiver louco
Subitamente se afaste
Quando eu estiver fogo
Suavemente se encaixe
E quando eu estiver triste
Simplesmente me abrace
E quando eu estiver louco
Subitamente se afaste
E quando eu estiver bobo
Sutilmente disfarce
Mas quando eu estiver morto
Suplico que não me mate, não
Dentro de ti, dentro de ti
Mesmo que o mundo acabe, enfim
Dentro de tudo que cabe em ti
Mesmo que o mundo acabe, enfim
Dentro de tudo que cabe em ti
E quando eu estiver triste
Simplesmente me abrace
E quando eu estiver louco
Subitamente se afaste
E quando eu estiver bobo
Sutilmente disfarce
Mas quando eu estiver morto
Suplico que não me mate, não
Dentro de ti, dentro de ti
Mesmo que o mundo acabe, enfim
Dentro de tudo que cabe em ti
Mesmo que o mundo acabe, enfim
Dentro de tudo que cabe em ti
Mesmo que o mundo acabe, enfim
Skank

Para refletir


.....

Naquela noite, enquanto minha esposa servia o jantar, eu segurei sua mão e disse: "Tenho algo importante para te dizer". Ela se sentou e jantou sem dizer uma palavra. Pude ver sofrimento em seus olhos.

De repente, eu também fiquei sem palavras. No entanto, eu tinha que dizer a ela o que estava pensando. Eu queria o divórcio. E abordei o assunto calmamente.
Ela não parecia irritada pelas minhas palavras e simplesmente  perguntou em voz baixa: "Por quê?"  Eu evitei respondê-la, o que a deixou muito brava. Ela jogou os talheres longe e gritou "você não é homem!" Naquela noite, nós não conversamos mais. Pude ouví-la chorando. Eu sabia que ela queria um motivo para o fim do nosso casamento. Mas eu não tinha uma resposta satisfatória para esta pergunta. O meu coração não pertencia a ela mais e sim  a Jane. Eu simplesmente não a amava mais, sentia pena dela.

Me sentindo muito culpado, rascunhei um acordo de divórcio, deixando para ela a casa, nosso carro e 30% das ações da minha empresa.

Ela tomou o papel da minha mão e o rasgou violentamente. A mulher com quem vivi pelos últimos 10 anos se tornou uma estranha para mim. Eu fiquei com dó deste desperdício de tempo e energia mas eu não voltaria atrás do que disse, pois amava a Jane profundamente. Finalmente ela começou a chorar alto na minha frente, o que já era esperado. Eu me senti libertado enquanto ela chorava. A minha obsessão por divórcio nas últimas semanas finalmente se materializava e o fim estava mais perto agora.
No dia seguinte, eu cheguei em casa tarde e a encontrei sentada na mesa escrevendo. Eu não jantei, fui direto para a cama e dormi imediatamente, pois estava cansado depois de ter passado o dia com a Jane.

Quando acordei no meio da noite, ela ainda estava sentada à mesa, escrevendo. Eu a ignorei e voltei a dormir.
Na manhã seguinte, ela me apresentou suas condições: ela não queria nada meu, mas pedia um mês de prazo para conceder o divórcio. Ela pediu que durante os próximos 30 dias a gente tentasse viver juntos de forma mais natural possivel. As suas razões eram simples: o nosso filho faria seus examos no próximo mês e precisava de um ambiente propício para prepar-se bem, sem os problemas de ter que lidar com o rompimento de seus pais.
Isso me pareceu razoável, mas ela acrescentou algo mais. Ela me lembrou do momento em que eu a carreguei para dentro da nossa casa no dia em que nos casamos e me pediu que durante os próximos 30 dias eu a carregasse para fora da casa todas as manhãs. Eu então percebi que ela estava completamente louca mas aceitei sua proposta para não tornar meus próximos dias ainda mais intoleráveis.
Eu contei para a Jane sobre o pedido da minha esposa e ela riu muito e achou a idéia totalmente absurda. "Ela pensa que impondo condições assim vai mudar alguma coisa; melhor ela encarar a situação e aceitar o divórcio" ,disse  Jane em tom de gozação.

Minha esposa e eu não tínhamos nenhum contato físico havia muito tempo, então quando eu a carreguei para fora da casa no primeiro dia, foi totalmente estranho. Nosso filho nos aplaudiu dizendo "O papai está carregando a mamãe no colo!" Suas palavras me causaram constrangimento. Do quarto para a sala, da sala para a porta de entrada da casa, eu devo ter caminhado uns 10 metros carregando minha esposa no colo. Ela fechou os olhos e disse baixinho "Não conte para o nosso filho sobre o divórcio" Eu balancei a cabeça mesmo discordando e então a coloquei no chão assim que atravessamos a porta de entrada da casa. Ela foi pegar o ônibus para o trabalho e eu dirigi para o escritório.
No segundo dia, foi mais fácil para nós dois. Ela se apoiou no meu peito, eu senti o cheiro do perfume que ela usava. Eu então percebi que há muito tempo não prestava atenção a essa mulher. Ela certamente tinha envelhecido nestes últimos 10 anos, havia rugas no seu rosto, seu cabelo estava ficando fino e grisalho. O nosso casamento teve muito impacto nela. Por uns segundos, cheguei a pensar no que havia feito para ela estar neste estado.
No quarto dia, quando eu a levantei, senti uma certa intimidade maior com o corpo dela. Esta mulher havia dedicado 10 anos da vida dela a mim.
No quinto dia, a mesma coisa. Eu não disse nada a Jane, mas ficava a cada dia mais fácil carregá-la do nosso quarto à porta da casa. Talvez meus músculos estejam mais firmes com o exercício, pensei.
Certa manhã, ela estava tentando escolher um vestido. Ela experimentou uma série deles mas não conseguia achar um que servisse. Com um suspiro, ela disse "Todos os meus vestidos estão grandes para mim". Eu então percebi que ela realmente havia emagrecido bastante, daí a facilidade em carregá-la nos últimos dias.
A realidade caiu sobre mim com uma ponta de remorso... ela carrega tanta dor e tristeza em seu coração..... Instintivamente, eu estiquei o braço e toquei seus cabelos.
Nosso filho entrou no quarto neste momento e disse "Pai, está na hora de você carregar a mamãe". Para ele, ver seu pai carregando sua mão todas as manhãs tornou-se parte da rotina da casa. Minha esposa abraçou nosso filho e o segurou em seus braços por alguns longos segundos. Eu tive que sair de perto, temendo mudar de idéia agora que estava tão perto do meu objetivo. Em seguida, eu a carreguei em meus braços, do quarto para a sala, da sala para a porta de entrada da casa. Sua mão repousava em meu pescoço. Eu a segurei firme contra o meu corpo. Lembrei-me do dia do nosso casamento.
Mas o seu corpo tão magro me deixou triste. No último dia, quando eu a segurei em meus braços, por algum motivo não conseguia mover minhas pernas. Nosso filho já tinha ido para a escola e eu me vi pronunciando estas palavras: "Eu não percebi o quanto perdemos a nossa intimidade com o tempo".
Eu não consegui dirigir para o trabalho.... fui até o meu novo futuro endereço, saí do carro apressadamente, com medo de mudar de idéia...Subi as escadas e bati na porta do quarto. A Jane abriu a porta e eu disse a ela "Desculpe, Jane. Eu não quero mais me divorciar".
Ela olhou para mim sem acreditar e tocou na minha testa "Você está com febre?" Eu tirei sua mão da minha testa e repeti "Desculpe, Jane. Eu não vou me divorciar. Meu casamento ficou chato porque nós não soubemos valorizar os pequenos detalhes da nossa vida e não por falta de amor. Agora eu percebi que desde o dia em que carreguei minha esposa no dia do nosso casamento para nossa casa, eu devo segurá-la até que a morte nos separe.
A Jane então percebeu que era sério. Me deu um tapa no rosto, bateu a porta na minha cara e pude ouví-la chorando compulsivamente. Eu voltei para o carro e fui trabalhar.
Na loja de flores, no caminho de volta para casa, eu comprei um buquê de rosas para minha esposa. A atendente me perguntou o que eu gostaria de escrever no cartão. Eu sorri e escrevi:  "Eu te carregarei em meus braços todas as manhãs até que a morte nos separe".

Naquela noite, quando cheguei em casa, com um buquê de flores na mão e um grande sorriso no rosto, fui direto para o nosso quarto onde encontrei minha esposa deitada na cama - morta.
Minha esposa estava com câncer e vinha se tratando a vários meses, mas eu estava muito ocupado com a Jane para perceber que havia algo errado com ela. Ela sabia que morreria em breve e quis poupar nosso filho dos efeitos de um divórcio - e prolongou a nossa vida juntos proporcionando ao nosso filho a imagem de nós dois juntos toda manhã. Pelo menos aos olhos do meu filho, eu sou um marido carinhoso.
Os pequenos detalhes de nossa vida são o que realmente contam num relacionamento.

Autor desconhecido


segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Reecontro

REENCONTRO

(Texto de Avelino F Menck)
Gentilmente cedido para Venturas do Viver)

Subia apressadamente a rua em direção à Sabesp. O aclive em curva ainda é bem acentuado. À medida que andava, vinham-lhe à mente recordações do tempo de adolescência. A única piscina da cidade, a do Dr. Arruda tão bem cuidada pelo sr Romão, ficava perto de onde ele estava.

Com o sr. Romão, as lembranças de um incidente: brincando na piscina, a imagem vem-lhe bem clara,salvara a vida de uma menina, também, adolescente. Linda menina, mas o nome não lembrava, só que era "de fechar o comércio" como se dizia à época.

Tentou apagá-las pois não havia tempo para isso. Tinha uma obrigação, hora marcada, por isso a pressa. Contudo, a emoção provocada foi muito forte.

A garganta ressequida, muito calor, a dor repentina, o braço já um tanto dormente. Seu médico já o avisara: "O coração já não anda lá essas coisas! Cuidado!"

O trabalho. A hora. Atrasado.

Solteiro vivia só desde que perdera os pais. Não se cuidava. Não tinha o porquê! Mas a dor! Esta aumentava naquele momento. "Dói, coração!Calejado...mas humano" dizia para si. A falta de ar. O peito arrebentando. O antebraço latejando muito. Sentou-se na calçada. Já não enxergava mais nada. Parecia ouvir vozes muito ao longe. Seriam sirenes?

Acordou em lugar completamente estranho. Uma mulher de branco. Uma vaga lembrança. Seria Médica?

— "Não se recorda de mim, Padre"?

"Padre"...poucos o chamavam assim na juventude. Fora coroinha no tempo do Padre Celso, daí o cognome. Mas ela, ela sim, sempre o chamara pelo apelido.

"Heliena! menina que salvara na piscina. Sua eterna paixão. A neta do Sr. Romão!

Felizes, riram muito ,e, entre recordações e carinhos: abraços e muitos beijos.

O fim de um longo celibato.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Seu “ Bau”

SEU 'BAU'

(Texto de Avelino Fernando Menck para Venturas do Viver)

Ao Sr. Bráulio Camargo de Freitas, amigo da família

" E viva Getúlio Vargas"
Eram as palavras finais de Seu “Bau” após um grande discurso que às vezes, durava horas.
Diga-se que os pronunciamentos atuais de um Fidel ou de um Chaves, são semelhantes ao antigo palavreado daquele velho amigo.
Pedreiro de profissão. Vivia em nossa casa, no sítio, como agregado, às vezes fazendo-se de cozinheiro de meu pai quando minha mãe precisava ficar conosco na cidade.
Sempre bebia- (síndrome dos antigos profissionais?) e quando o fazia, iniciava as falas sempre em defesa de seu maior ídolo. .Ninguém quase o ouvia.
Mas, no dia 24 de Agosto de 1954 foi diferente.
Bêbado, em pé, no alto do calçadão em frente a estrada no antigo armazém de meu pai, encostado à parede, defendia mais uma vez o governo Vargas.No início, apenas eu o escutava e por isso chamou-me para perto de si, abraçou-me e sem que eu esperasse, deu-me um beijo na testa. Quis fugir, contudo, sentindo pena, ali permaneci ouvindo-o.
Em suas explanações explicava os atos do grande presidente: voto da mulher, a proibição do trabalho para o menor de 14 anos, a lei do salário mínimo, e, detalhava passo a passo os efeitos produzidos pela legislação trabalhista da época.
Em pouco tempo eu não era o único a ouvi-lo. Juntou-se a mim um pequeno amigo de folguedos, seu pai em seguida e mais um ouvinte e mais outros. Em meia hora aglomerava-se pequena platéia, cerca de vinte pessoas, que já impedíamos o tráfego na estreita estrada de terra que ligava S. Paulo ao norte do Paraná.
Parou o primeiro caminhão de transportes. Buzinou. As pessoas entorpecidas pelo palavreado do orador não saíram. Seu Bau bradava e ao mesmo tempo despejava lágrimas, lembrando também de seu irmão Lauri, pracinha da segunda guerra, o que comovia as pessoas que o ouviam
Parou outro caminhão em sentido contrário e mais um e outro e outro mais. Os motoristas desciam e se juntavam à pequena multidão e também o aplaudiam, comovidos pelo inusitado da cena.
Seu Bau discursava. Falava que falava e se emocionava contagiando a platéia que nunca fora tão numerosa até então.
Meu pai fechou as portas do armazém e se juntou a nós tentando entender como acontecera aquilo tudo. Seu João, funcionário no armazém, ficara para ouvir no velho rádio à bateria (carregada com energia eólica) as últimas notícias do dia. Em seguida, meio apavorado, juntou-se à multidão e anunciou: ”Bau, seu presidente suicidou-se esta madrugada”.
Percebi a lividez da face do velho homem que parara de falar e levantando os olhos para os céus balbuciou: ”Que Deus o tenha!”. Levou a mão direita ao peito, sobre o coração e com sua voz um tanto rouca começou a cantar o Hino Nacional, ato seguido por nós todos, até o finalzinho sem o menor deslize: ”...és mãe gentil. Pátria amada. Brasil!”
A emoção fora grande demais para aquele simples homenzinho.
Levou a outra mão também ao peito e num gemido muito forte tombou na calçada, já sem vida.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Marta


MARTA

Em nossa casa a primeira pessoa a pronunciar o nome de Marta foi minha mãe. Da janela, de onde me descrevia as alterações ao redor, disse que a frente da casa tinha agora a cor verde. Perguntei se gostaríamos do verde e ela, curvando-se ao meu lado, disse num sorriso triste:

— A casa foi alugada. A nova moradora nos mostrará se gostaremos ou não da nova cor.

— Quem alugou a casa?

— O nome dela é Marta!

Quase todas as informações eram colhidas no ponto de ônibus ou na mercearia. Nosso bairro era antigo, distante, e estava contaminado por uma febre que já havia levado dali os moradores tradicionais. Onde no passado os imigrantes jogaram os alicerces das primeiras casas de nossa cidade, as máquinas, aplainando, criaram um vasto campo desolado para a construção do aeroporto. Enfrentando um processo de desapropriação injusto os moradores arribaram para locais ainda mais distantes. Nós permanecemos ali porque minha mãe não queria morrer em outro lugar.

Minha irmã não havia voltado para a casa da patroa. Do quarto disse qualquer coisa que não entendi direito. Ela agredia resmungando e em geral muito zangada. Depois minha mãe disse a ela que talvez Marta soubesse que o bairro estava condenado. Teria alugado a casa por pouco tempo.

A patroa de minha irmã a cobria de mimos. Fazia dela a beneficiária das roupas da filha, quase sem uso, e a ela vendia pela metade do preço algumas utilidades ainda na embalagem original. Minha mãe tentava ensinar lealdade à minha irmã fazendo notar que não era justo vir por uma noite e não voltar ao trabalho na manhã seguinte. Dava de ombros, insistia em lembrar seu desejo de trabalhar no comércio, transformar-se em balconista, esquecer para sempre que fora doméstica. Eu torcia francamente por ela, o meu coração ficava bastante oprimido em razão daquela forma de pensar de minha mãe. A nossa lealdade para com os que possuíam alguma coisa nunca fora até então correspondida e embora a patroa de minha irmã fosse um tipo mão aberta, o seria enquanto lhe interessassem os préstimos da empregadinha. Eu também sonhava com o dia em que minha irmã pudesse ir linda para o trabalho, produzida como nas noites em que saia para dançar.

Marta estava produzida quando a vi pela primeira vez na moldura da porta de nossa casa. E esteve produzida todas as vezes que dali para frente a vi.

Apareceu mais amiúde depois que minha irmã deixou de vir por uma noite ou duas seguidas. Depois da segunda semana minha mãe se pôs aflita. Marta saiu com ela dali para frente enquanto havia esperança de encontrarem minha irmã em algum hospital, alguma delegacia de polícia, algum antro. Depois foi com minha mãe procurar por minha irmã no necrotério.

Marta apreciava o infinito. No imenso descampado feito pelas máquinas para a construção do aeroporto, punha-me no chão, sentava-se ao meu lado nas noites cálidas enfeitadas por estrelas. Dizia que muitos daqueles pontinhos de luz provinham de corpos luminosos que há milhares de anos já não existiam.

— Lá você está vendo uma coisa que não existe!

— Como não existe se estou vendo?

— Está vendo somente o efeito. Somente a luz que um dia se produziu no universo. A luz que por muito, muito tempo ainda, continuará orientando os caminhantes por terras e por mares.

Foi Marta quem mais se alegrou quando ganhei minha cadeira de rodas. Mais até do que minha mãe, que ao longo da vida o que mais fez foi chorar.

— Agora você pode aprender a usar as mãos movendo as rodas de sua liberdade de ir e vir – disse-me Marta ao me por sobre a cadeira.

E eu, que nasci sem minhas duas pernas, deixei de ser um toco de gente.

Ainda vejo Marta quando vejo o verde. Amo essa cor.

E ainda é a luz de Marta quem me orienta e conduz.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Paralelas








PARALELAS

(texto de Avelino Fernando Menck)
(Gentilmente cedido para Venturas do Viver)

Escrever...escrever...

Não havia muros na cidade que não tivesse recebido diferentes borrões de tinta. Adorava fazer isso em seus momentos de fuga da realidade.

Mestre de obras. Quarenta anos. Tranquilo. Não bebia, não fumava. Era de casa para o trabalho, do trabalho para casa. Não respeitava feriados. Aos domingos imaginava novas plantas. Por que não a de seu futuro lar?

Não podia ver paredes ou muros recentemente pintados. Era um convite ao seu passatempo preferido. Gostaria de ser um bom grafiteiro. Pintaria coisas do outro mundo! Seria reconhecido como um dos melhores! Mas, onde a arte?

Guapa bonita. Vinte e cinco anos. Ele a conhecera em uma lanchonete onde ela trabalhava há algum tempo. Sempre o servia nas vezes em que ele, ocasionalmente, procurava por lanches rápidos pois o trabalho não lhe permitia perda de tempo. Precisava construir.

Secretária boa e eficiente ele a tinha. Assinava muitos documentos sem ler, tal
era o grau de segurança no trabalho desenvolvido por ela. O trabalho - dela- era estafante. O tempinho que ele tinha, andava pela cidade a ver as novidades: muros e paredes limpinhos.

Suas horas de folga ele agora as consumia na companhia de tão doce namorada a quem mostrava todos os seus projetos, incluindo aquele que construía, talvez para ela. E pensava:" Vou construir a minha, na felicidade dela...muito bom".

Certa manhã acordou com um tumulto na rua. "Ainda bem que pegaram o moleque". "Que cara! Pichando coisas obscenas!" "Se fosse meu filho além de apanhar, teria que pintar tudo novamente". Deveria haver uma lei que proibisse tais atos" " Pois é nosso prefeito é um "bundão" - emendou alguém da oposição.

Não demorou nada e o casamento se consumou, respeitadas as normas dos proclamas.
Felicidade!
"Vou edificar minha felicidade, no conforto dela" - dizia aos poucos amigos. " muito bom" - respondiam-lhe. Meses de ternura e intenso amor.

Aquela noite veio-lhe lembrança de seus desesseis/desesste anos. Surgiu em sua mente a antiga namorada, seu primeiro amor, que lhe ensinara a arte de pichar. Peripécias mil na arte! Aonde andaria! Ah saudades! Bons tempos! Esperou a madrugada chegar e saiu.

Naquela tarde a saudade apertou. Voltou mais cedo para casa querendo fazer surpresa agradável, entrou sem fazer barulho. Risos no quarto. Um voz masculina se misturava a dela.

Indgnaçao.

Não fez escândalo. Não era de seu feitio. Foi ao bar.
Tinta na mão.
Diferentes cores.

Sabia qual fachada a ser pichada. A prefeitura. Muros e paredes pintadinhos de branco. Parecia ouvir as palavras da ex-namorada. "Isso...agora faz o sol...lindo!..Flores, é primavera..." Febrilmente executava a tarefa.
Bebeu. Bebeu muito.

Ao voltar para casa, ela já o esperava apreensiva. Ele nunca chegara tão tarde. Serviu o jantar, dirigu-se à alcova. Ele bebia da garrafa que levara e cantarolava " O João de barro pra ser feliz como eu. "

Atrás da porta, uma picareta. Instrumento do trabalho.

No peito.

Um golpe só.

Discou 190.
Quase manhã. Estava pondo assinatura no maravilhoso trabalho. "Saudoso". Prestes a grafar "oso", ouviu uma voz conhecida e gelou."

-- Mas... ora veja senhor prefeito. O senhor fazendo estas artes!

A secretária discou 190 e botou a boca no mundo.

domingo, 12 de setembro de 2010

Prece de Gandhi



PRECE DE GANDHI


(Texto de Mahatma Gandhi)



Se eu pudesse deixar algum presente a vocês,
deixaria acesso ao sentimento
de amar a vida dos seres humanos.

A consciência de aprender tudo
o que já foi ensinado pelo tempo afora.

Lembraria os erros que foram cometidos
para que não mais se repetissem.

A capacidade de escolher novos rumos.

Deixaria a vocês, se pudesse,
o respeito àquilo que é indispensável:
além do pão, o trabalho,
além do trabalho, a ação.

E quando tudo o mais faltasse, um segredo:
o de buscar em si mesmo a resposta e a força
para encontrar a saída.

----------- 000000000 ---------------




(música interpretada por Mercedes Sosa e Beth Carvalho)




Eu só peço a Deus
Que a dor não me seja indiferente.
Que a morte não me encontre um dia
solitário sem ter feito o que eu queria.

Eu só peço a Deus
Que a injustiça não me seja indiferente.
Pois não posso dar a outra face
se já fui machucado brutalmente.
Eu só peço a Deus
Que a guerra não me seja indiferente.
É um monstro grande, pisa forte
toda pobre inocência dessa gente.

Eu só peço a Deus
Que a mentira não me seja indiferente.
Se um só traidor tem mais força do que um povo
que esse povo não esqueça facilmente.

Eu só peço a Deus
Que o futuro não me seja indiferente.
Sem ter que fugir desenganado
pra viver uma cultura diferente.


sábado, 11 de setembro de 2010

Pistas




PISTAS

(Texto de Avelino Fernando Menck)
(Gentilmente cedido para Venturas do Viver)


Acordou sozinho no hospital. Cabeça enfaixada, braço e perna engessados. Um estrago considerável. Na mão livre sua carteira e um bilhete "Na próxima não seja tão afoito. Levei trezentos pela peça rasgada". À medida que o efeito das anestesias e drogas passava, ele recordava o incidente.

Naquela manhã, acordara sentido um suave perfume que não lhe era muito familiar. Sobre sua cabeça, pequena peça de roupa rendada, parte superior de sensual pijama feminino. Aspirou mais uma vez o perfume esfregando-a pelo rosto e só então percebeu que estava sem companhia
Sentou na cama espreguiçando-se, e, dirigindo o olhar para a porta do quarto, como se a procurasse, deparou com a parte inferior do pijama pendurado na maçaneta. Levantou-se, apanhou a peça levando-a de encontro ao peito. Só então percebeu sua nudez.

Abriu a porta, um soutien de levíssimo tecido descansava no corredor não muito longo. Caminhou até ele e, brincando, colocou a alças nos ombros como se o vestisse.O perfume ainda impregnado na peça inebriou-o mais uma vez. Fechou os olhos sonhando.

No chão, em frente à porta entreaberta do banheiro, a última peça: branca, transparente e pequena. Uma voz cantarolava "When I need you" e ouvia-se o ruído relaxante da água que enchia a banheira.

Abriu a porta vagarosamente e a viu, totalmente imerso em espumas, apenas o belo rosto à flor da água. "Entre amor, estava te esperando". Foi a última coisa que ouviu antes do escorregão.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Celular! Ah! Meu celular.



Celular! Ah! Meu celular

(texto de Avelino Fernando Menck)
(Gentilmente cedido Venturas do Viver)


Todo dia encontro-a na rua, feliz. Queria dizer-lhe alguma coisa. Um bom dia talvez! Porém, mudo de calçada para não constrangê-la com meu olhar suplicante.
Confesso. Estou triste! Hoje não a vi. Nunca imaginei que ela me fizesse tanta falta. Estará doente?! Ou mudou o trajeto? Outra rua talvez! Queria tanto vê-la, mesmo à distância. Pode ter antecipado sua caminhada para me evitar?
O desencontro me abala. Ah! Se eu soubesse o celular!
Já em casa ouço músicas: I don´t want to talk about it, Just tell me you love me,Bed of roses. Sonhos. Vejo-me em um grande salão dançando com ela de roso colado. Minha mão direita descansa em seu dorso desprotegido até a metade. A esquerda, sob seus longos cabelos aproxima seu lindo rosto contra o meu e sinto o suave perfume que a fresca pele de seus ombros desnudos exala.Palavras? Nenhuma.Só o pensamento viaja.
Imaginem...Whem a man loves a woman. Minha mão passeia por seus ombros nus.Ela aperta meu antebraço suavemente..."Suave é a noite". Nossas mãos, entrelaçados os dedos, se encontram e carinhosamente nos entregamos a devaneios. "Feelings" Nossos olhares se cruzam.Lindos olhos castanhos claros. Às vezes esverdeados. Ela entrelaça meu pescoço com ambas as mãos. As minhas? Bem, as minhas, trêmulas, cingem sua cintura. "Feelings"... Últimos acordes. Olhos semi-cerrados, ela me oferece os tão desejados lábios. Nosso primeiro pacto de amor? Meu coração treme como se levasse um leve choque. Sua imagem desaparece de meus braços.
O celular, no bolso da camisa vibra. A mensagem:
" Não foge mais de mim...Eu também te amo!"

quinta-feira, 15 de julho de 2010

AZIZA

Ela era ainda uma menina nos seus dez anos de idade.

Todos os dias a mãe a levava ao mercado, na cidade de Cabul.

Deixava-a circulando pelos corredores, maravilhando-se com as quinquilharias postas a venda nos diversos Box. Tinha recomendações expressas para que não aceitasse convites e nunca se afastasse dali, sozinha ou acompanhada. A mãe passava o dia exercendo a profissão que abraçara depois da morte do marido.

Aziza não podia compreender as regras daquela sociedade onde a mãe, em determinados ambientes, podia rir e festejar com pessoas que, em público, passavam por ela virando o rosto. Em publico, nem mesmo um olhar de asco semelhante ao que sempre é lançado ao lixo que se acumula nas calçadas.

Em público não era nem mesmo uma desconhecida; era inexistente!

O pai lhe dissera da existência de fadas. Contara sobre certas condições nas quais uma criança pode merecer a atenção de um duende. Num futuro, que não estaria muito distante, um ente encantado a levaria ao estrangeiro oferecendo os meios para instruir-se e vir-a-ser uma pessoa de influências em algum Órgão Internacional, como a ONU. Quando se mostrava ansiosa pela vinda do ente benfeitor, o pai a acariciava com ternura, procurando distraí-la.

-- Menina querida, tudo tem seu tempo!

Vieram mesmo muitos tempos, um dos quais lhe levou o pai para sempre.

Ela e a mãe foram ver o corpo, que entre outros corpos, foi retirado da carroçaria do carro de guerra, entre os muros, no cemitério. A cabeça estava toda coberta por panos manchados de sangue e o pai estava descalço como sempre andara antes da guerra. A roupa que usava era de soldado. Melhor do que as de seu dia-a-dia antes da guerra. Lá no céu o Sol reinava absoluto emitindo sua luz tão branca e tão capaz de transformar as areias em um manto de brasa.

Entre as poucas pessoas que se reuniram no cemitério na ocasião havia um dos lideres religiosos a proclamar a bonde de Ala. Uma bondade terrível! Em conseqüência daquela bondade, o pai era agora apenas uma saudade doída em seu coração infantil.

Alguns meses depois a mãe arrumou aquele seu trabalho. Elas duas passaram a percorrer juntas as ruas pela manhã, em direção ao mercado. E ela passou a percorrer algumas vezes sozinha as mesmas ruas de volta para casa ao cair da noite.

Vinha tiritando de medo, atravessando as vielas onde apenas escombros contavam de habitações bombardeadas. Aziza tinha medo do resto de gente que se deixava ficar entre os entulhos na calçada, recolhendo esmolas. Era o que restava de um homem que lutara na frente de batalha ao lado do pai. A ele faltavam as duas pernas e um dos braços. Era um toco apenas.

Enquanto pela bondade de Alá o pai era uma saudade em seu coração, aquele resto de ser humano era um peso para seus familiares. E assim, Aziza, que jamais teve um livro em suas mãos, aprendeu a desistir de seus sonhos para glorificar a bondade infinita que existe nas sábias lições da vida objetiva.

E Aziza passou a desejar ardentemente que existissem as fadas com seus poderes para driblar os caprichos da vida.

A desejar que uma delas se encarregasse de vir numa noite de lua, ou numa linda manhã de sol. Um ente de amor que viesse, não para levá-la aos estudos e aos primeiros degraus de uma brilhante carreira diplomática, mas, sim, que viesse trazer conforto ao pobre mutilado.

O CARROSSEL

O CARROSSEL



A porta de entrada, ainda que jamais escancarada, ela a encontrou sempre aberta necessitando apenas de um leve toque para afastar a folha e entrar. Em poucos dias familiarizou-se com o ambiente e com o inquilino a quem se habituou a vir quase todos os dias. Parecia-lhe ser um homem mais feliz do que infeliz. Passava muito tempo escrevendo. Quando não o via diante do monitor do micro era porque acarinhava as flores nos fundos do chalé. Se não o via em parte alguma nos arredores, o coração se inquietava, ela se consumia em mau humor que precisava ocultar. A ele dizia chorosa que o coração se enchia de preocupações, mas o que realmente lhe devorava a alma eram os ciúmes.

Via a alegria nos olhos dele em muitos momentos e com freqüência tinha absoluta certeza de que em parte a alegria lhe vinha em razão de sua presença. Ocasionalmente ele a levantava abraçando, rodava com ela negando-lhe por brincadeira os lábios para o beijo eufórico. Ela então vibrava intensamente e rodando suspensa nos braços dele fechava os olhos para sonhar girando num imaginário carrossel do amor.

Certas coisas que ele falava ela não compreendia, mas gostava de ouvir. Uma vez lhe falou sobre a mulher que passou com uma carroça muito carregada, carregada a tal ponto que em determinados trechos da trilha precisava ajudar puxando a carga pela corrente ao lado dos burros. Ela nunca soube se ele havia visto tal mulher com a carroça, e, se a vira, se a estava elogiando ou lastimando-lhe as escolhas. Era algumas vezes brincalhão como quando contou sobre a mulher que abraçou uma foca ao desejar sair para a areia, na praia.

Tinha uma coisa de bom. Sempre a fazia sentir-se pertencente e jamais se escondia das pessoas quando em passeios com ela. Nisso diferenciava-se da maioria dos homens com os quais já havia se relacionado e que não eram poucos apesar de sua pouca idade. Nos primeiros dias mentira para ele dizendo-lhe que dissera aos pais que passaria a noite na casa do namorado. De outro modo ele a teria levado para casa a despeito da noite escura e muito fria. Desmentiu alguns dias depois, sem ser pressionada a fazê-lo, pois ele nunca mais demonstrou preocupação pelo giro dos ponteiros arrastando as horas para dentro da noite. Mas a surpreendeu presenteando-a com uma flauta doce. Disse-lhe que não era difícil aprender. Soprando uma flauta, dissera-lhe ele, você será aos meus olhos um símbolo dos novos tempos. Ela pediu explicações. Estavam em um parque, sobre o gramado de um verde muito escuro aparado, próximos ao lago. Ele a levantou nos braços e girou com ela num ritmo quase alucinante, de sorte que ao deixá-la sobre o chão firme, precisou ampará-la para não cair como acometida por uma vertigem. Então a fez deitar-se e beijando-lhe os olhos disse:

-- Ao longo de milhares de anos, religiões e filosofias tornaram inevitáveis os movimentos feministas. Você pertence a uma nova humanidade que está surgindo, e, ainda que não saiba disso, anuncia a nova era ao seu modo.

-- Mas eu não sou feminista.

-- Não!Claro que não. Você é feminina.

-- Gosta assim?

-- Claro!

-- Então gosta de mim?

-- Por que não?

Ela sentia que sim. Fosse de outro modo não seria tão bom rolar com ele sobre o tapete da sala, nas noites mais quentes, arrepiando-se com os toques dos lábios e dos dentes dele mordiscando-lhe o lóbulo, a cavidade e a área posterior da orelha. Não! Não era como eram os outros quando lhe beijava a nuca e descia a mão acariciando-lhe as costas. Não era igual a ninguém quando lhe punha louca ao lhe beijar as partes internas das coxas, excitado e excitando-a sobre o carpete da sala.

O que ela não sabia é que ele se deixava vencer pelas premências da carne e por isso a tomava daquela forma. Não desejava vê-la um dia com as cargas físicas e emocionais da mulher da carroça, esquecida de amar em razão dos encargos atraídos sobre seus ombros pelos resultados dos movimentos feministas que alardeiam a libertação feminina. Ele a via menina com tanta estrada a avançar em sua caminhada e temia pelo que pudessem lhe fazer as pressões sociais, humilhando-a e levando-a a desistir de sua marcha, voltando como a foca que nunca se decidiu por ser um animal da terra ou do mar.

Tomando-a nos braços, sentia-se ele próprio como se posto por uma força estranha sobre os cavalos de um carrossel, completamente incapaz de impedir o movimento de sobe e desce no giro do tempo.

ASSIM MORREU ZENEIDE

A noite chegou preguiçosa, atrasada, depois de um dia que não queria passar.

As estrelas não apareceram logo. As nuvens espessas de pó e de fuligens desejaram poupá-las das imagens grotescas e dos guinchados do padre, exigindo dos guardas a retirada do corpo das escadarias. Eles dois, cada um segurando em um dos pés, arrastaram o defunto até um canto retirado do gramado. Cobriram com uma lona escura. Acreditavam que naquele caso a polícia técnica não se importaria com a remoção. Algumas pessoas aguardaram por mais de uma hora na esperança de que os pivetes fossem trazidos ao local pelas orelhas. Mas os próprios guardas lhes disseram que de nada adiantaria prendê-los e aos poucos os curiosos se dispersaram.

Zeneide morreu quando saia da igreja, nem soube que o Senhor a veio aliviar por intermédio dos pivetes. Nem eles desejavam atirar nela. Aconteceu. E foi somente isso, quer dizer, foi uma obra do destino, de cujos caprichosos desenhos ninguém está livre.

Foi menina danada, a Zeneide.

Arredia, calada, impossível de amestrar. Cresceu no barraco, nas imediações. Com dose anos de idade ela era dada a seguir as irmãs de caridade que por lá faziam suas rondas distribuindo alimentos, remédios, conselhos e santinhos. Ansiava então pela vinda do pai, ao cair da tarde, sentando-se no chão para acariciar as canelas dele. Parecia enamorada. O pai fazia questão de retribuir a atenção. Punha-a para dormir e não saia do quarto enquanto ela não estivesse dormindo a sono solto. Com o tempo ele começou a se esquecer daquele apego da menina. Então, um dia, ela criou coragem e pediu a uma das freiras para ver como era a embalagem dos preservativos. A freira desconfiou, mas considerou melhor estimular a prevenção. Alguns dias depois o homem que vendia revistas lhe disse em segredo que aquilo não era nem bom nem necessário. E que podia revender dando-lhe alguns trocados. Mas para isso ela precisava aprender a tirar das freiras uma ou duas fieiras completas.

Não era de juntar-se às pessoas, não era de brincar com os meninos que corriam pelas ruas enlameadas. Eles corriam girando aqueles arcos de barris, tocando-os com uma lasca de madeira escura. Não era de brincar com as meninas que batizavam bonecas, ou se expunham ao final da tarde, sentadas sobre a guarda da ponte e pondo a língua para os homens que passavam cansados, elogiando-as, formulando convites para carinhos na cama.

Não! Ela não se juntava a ninguém, preferindo olhar, distraída, para os cães que talvez superassem em número aos humanos que por ali consciente ou inconscientemente cumpriam os dias que a generosa vida lhes riscara nas estrelas. Tardes de sol se pondo avermelhado, avermelhando os telhados de zinco, os terreiros e as ruas de terra nua cortadas por esgoto a céu aberto. Era o pó que avermelhava o sol, ou era o sol vermelho que coloria a poluição, pondo franjas escarlates na fumaça negra das chaminés fabris?

O pai já havia desaparecido quando Zeneide começou a inchar. O homem da banca passara a ser defunto por obra de uma bala perdida. Os meninos riam dela e abaixavam as calças para ela, insultando-a em público. Entre as meninas havia sussurros e as mais ousadas apontavam-na com o dedo em riste, chamando-a de santinha de bordel.

Quando a criança nasceu, veio ao mundo deficiente. Os pezinhos tortos, as perninhas frágeis, sendo uma visivelmente menor que a outra.

Zeneide chorou durante quase todo o primeiro ano. Com a criança no colo, ou acavalada em seu quadril, iniciou as novenas implorando a todos os santos pela cura milagrosa. A criança não andou antes do segundo ano. Nunca andaria como as outras crianças. Praticamente arrastava-se.

No início da noite, enquanto a menina dormia, Zeneide ia à igreja, implorar aos santos uma intervenção junto ao destino. Queria que a filha pudesse pelo menos andar, mesmo que continuassem tortos os pezinhos. Bastava corrigir a atrofia dos músculos.

Ia à igreja no início da noite a conselho do padre. Ele queria poupá-la dos falatórios das carolas na hora da reza do terço. Eram pias demais as carolas. Elas acreditavam que a presença de Zeneide na igreja, na hora da reza, era um insulto ao Santíssimo, a fonte do amor e da misericórdia. E não era conveniente que ela continuasse a vir à sacristia. O padre era o pastor de todas as almas e não podia se dedicar a uma só ovelha. Tanto mais uma ovelhinha que vivia perdendo coisas por ali.

Por ser cabeça dura Zeneide nunca entendeu o que o padre quis dizer com aquele ‘perdendo coisas por ali’. Mas o padre era inteligente e sabia o quanto fora exposto ao constrangimento perante a freira. Sentira-se instado a explicar o aparecimento da embalagem contendo uma camisinha entre seus pertences. Tinha a marca de distribuição feita pelas freiras. Zeneide a deixara cair na nave do templo!

Assim morreu Zeneide. Alguém há de contar como sobreviveu a filha, que ficou sozinha aos dois anos de idade em nosso mundo tão pleno de amor.

A noite chegou preguiçosa, atrasada, depois de um dia que não queria passar.

As estrelas não apareceram logo. As nuvens espessas de pó e de fuligens desejaram poupá-las das imagens grotescas e dos guinchados do padre, exigindo dos guardas a retirada do corpo das escadarias. Eles dois, cada um segurando em um dos pés, arrastaram o defunto até um canto retirado do gramado. Cobriram com uma lona escura. Acreditavam que naquele caso a polícia técnica não se importaria com a remoção. Algumas pessoas aguardaram por mais de uma hora na esperança de que os pivetes fossem trazidos ao local pelas orelhas. Mas os próprios guardas lhes disseram que de nada adiantaria prendê-los e aos poucos os curiosos se dispersaram.

Zeneide morreu quando saia da igreja, nem soube que o Senhor a veio aliviar por intermédio dos pivetes. Nem eles desejavam atirar nela. Aconteceu. E foi somente isso, quer dizer, foi uma obra do destino, de cujos caprichosos desenhos ninguém está livre.

Foi menina danada, a Zeneide.

Arredia, calada, impossível de amestrar. Cresceu no barraco, nas imediações. Com dose anos de idade ela era dada a seguir as irmãs de caridade que por lá faziam suas rondas distribuindo alimentos, remédios, conselhos e santinhos. Ansiava então pela vinda do pai, ao cair da tarde, sentando-se no chão para acariciar as canelas dele. Parecia enamorada. O pai fazia questão de retribuir a atenção. Punha-a para dormir e não saia do quarto enquanto ela não estivesse dormindo a sono solto. Com o tempo ele começou a se esquecer daquele apego da menina. Então, um dia, ela criou coragem e pediu a uma das freiras para ver como era a embalagem dos preservativos. A freira desconfiou, mas considerou melhor estimular a prevenção. Alguns dias depois o homem que vendia revistas lhe disse em segredo que aquilo não era nem bom nem necessário. E que podia revender dando-lhe alguns trocados. Mas para isso ela precisava aprender a tirar das freiras uma ou duas fieiras completas.

Não era de juntar-se às pessoas, não era de brincar com os meninos que corriam pelas ruas enlameadas. Eles corriam girando aqueles arcos de barris, tocando-os com uma lasca de madeira escura. Não era de brincar com as meninas que batizavam bonecas, ou se expunham ao final da tarde, sentadas sobre a guarda da ponte e pondo a língua para os homens que passavam cansados, elogiando-as, formulando convites para carinhos na cama.

Não! Ela não se juntava a ninguém, preferindo olhar, distraída, para os cães que talvez superassem em número aos humanos que por ali consciente ou inconscientemente cumpriam os dias que a generosa vida lhes riscara nas estrelas. Tardes de sol se pondo avermelhado, avermelhando os telhados de zinco, os terreiros e as ruas de terra nua cortadas por esgoto a céu aberto. Era o pó que avermelhava o sol, ou era o sol vermelho que coloria a poluição, pondo franjas escarlates na fumaça negra das chaminés fabris?

O pai já havia desaparecido quando Zeneide começou a inchar. O homem da banca passara a ser defunto por obra de uma bala perdida. Os meninos riam dela e abaixavam as calças para ela, insultando-a em público. Entre as meninas havia sussurros e as mais ousadas apontavam-na com o dedo em riste, chamando-a de santinha de bordel.

Quando a criança nasceu, veio ao mundo deficiente. Os pezinhos tortos, as perninhas frágeis, sendo uma visivelmente menor que a outra.

Zeneide chorou durante quase todo o primeiro ano. Com a criança no colo, ou acavalada em seu quadril, iniciou as novenas implorando a todos os santos pela cura milagrosa. A criança não andou antes do segundo ano. Nunca andaria como as outras crianças. Praticamente arrastava-se.

No início da noite, enquanto a menina dormia, Zeneide ia à igreja, implorar aos santos uma intervenção junto ao destino. Queria que a filha pudesse pelo menos andar, mesmo que continuassem tortos os pezinhos. Bastava corrigir a atrofia dos músculos.

Ia à igreja no início da noite a conselho do padre. Ele queria poupá-la dos falatórios das carolas na hora da reza do terço. Eram pias demais as carolas. Elas acreditavam que a presença de Zeneide na igreja, na hora da reza, era um insulto ao Santíssimo, a fonte do amor e da misericórdia. E não era conveniente que ela continuasse a vir à sacristia. O padre era o pastor de todas as almas e não podia se dedicar a uma só ovelha. Tanto mais uma ovelhinha que vivia perdendo coisas por ali.

Por ser cabeça dura Zeneide nunca entendeu o que o padre quis dizer com aquele ‘perdendo coisas por ali’. Mas o padre era inteligente e sabia o quanto fora exposto ao constrangimento perante a freira. Sentira-se instado a explicar o aparecimento da embalagem contendo uma camisinha entre seus pertences. Tinha a marca de distribuição feita pelas freiras. Zeneide a deixara cair na nave do templo!

Assim morreu Zeneide. Alguém há de contar como sobreviveu a filha, que ficou sozinha aos dois anos de idade em nosso mundo tão pleno de amor.